Jana

Jana

Jana fez-se rapaz. Assim, sem escolha. A vida escolheu por ele. Começou na mergulhança pela mão do Anão. Não havia melhor mergulhador que o Anão. Era o tarzan do mergulho!!

Aos poucos Jana foi aprendendo a mestria. Fazia equipa com o Antoninho, o remador. E iam a todos!!!

Por vezes, estava frio e vento, ou o mar estava bravo e Jana preferia ficar em terra. Mas não podia. Tinha que ganhar para comer.

Lembra-se bem das vezes em que o Antoninho vinha, de manhã, bater-lhe à porta, e Jana fazia que ainda estava dormindo e que não o ouvia.

– Sabe o que esse desgraçado fazia? Metia o dedo pelo postigo, abria o trinco devagarinho e metia-me uma pitada de tabaco pelo nariz.

Não havia escolha. Os barcos agrupam-se ali ao largo e a vida impunha-se. Dia após dia.

Aprendeu a dar saltos acrobáticos e aprendeu a enganar o turista, dizendo que a moeda se perdera no mar e solicitando mais uma. Era um jogo. E funcionava, na maioria das vezes. Mas os ingleses,

uuuui, esses eram uns malabaristas,  para não jogar dinheiro, jogavam os pratos, as canecas da cerveja, os talheres, os copos. Às vezes, depois do almoço ou de jantar, atiravam tudo para o mar. Não fazem ideia!!

Recorda uma vez, na passagem do Mauritânia ter mergulhado cento e tal pratos e colheres. Foi uma coisa nunca vista!!!

Jana e os companheiros metiam tudo dentro da canoa. Vinham para terra e vendiam as quinquilharias por aí: pratos a 2 tostões, 5 tostões e por ai adiante.

era sempre a aviar. Eram pratos bons, pesados. As colheres e as facas eram de prata.

Mas o dinheiro durava pouco. Havia contas por pagar na venda e na tasca, contas para acertar com o vizinho que tinha desenrascado uns escudos .. enfim… o dinheiro voava e a vida também…

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Acerca do Autor

Graça AlvesLicenciada em Línguas e Literaturas Modernas, é professora do ensino Secundário e tem participado em diversos projetos literários. Está destacada no Centro de Estudos de História do Atlântico, onde tem desenvolvido trabalhos ligados à literatura e às histórias de vida.Ver todos os posts por Graça Alves →

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