1967-1976 Memórias dum tempo: A Madeira e os movimentos que determinaram o fim da ditadura

Newsletter 59: Madeira e Gibraltar https://t.co/Zy7YNbWA1s https://t.co/I9jDkhesI9

1967-1976 Memórias dum tempo: A Madeira e os movimentos que determinaram o fim da ditadura

Escrever sobre o processo que antecede o fim da ditadura e a consolidação do estado democrático configurado na Constituição de Abril de 1976 é um trabalho que requer tempo, espaço para expressão das memórias e concentração. Trata-se dum processo que ocorreu há mais de quatro décadas. Destaco como datas de referência:
–1967, ano que representou a ligação entre a militância associativa na Acção Católica     Operária, nomeadamente entre militantes da JOC – Juventude Operária Católica, e o núcleo     de jovens  que deu início ao projecto jornalístico Comércio do Funchal (CF).
–1976, ano da conclusão da construção deste modelo de estado, através da aprovação e     Promulgação da Constituição da República, da realização das primeiras eleições     Regionais e autárquicas seguida pelo anuncio da decisão da adesão à CEE, com a assinatura do     protocolo       adicional ao acordo de 1972.
Se o movimento operário católico foi determinante para formar a consciência politica de muitos jovens de origem operária (a JOC não estava tutelada pelo estado novo.), a refundação do Comércio do Funchal, foi como que uma escola para essa mesma geração, particularmente para os que aguardavam a incorporação militar. Perceberia depois, com a errância pelo país, que o CF constituiu um elo de ligação com os movimentos grevistas que se multiplicavam e que evoluíam das motivações económicas para a contestação politica, fazendo frente comum com o movimento estudantil: nas faculdades estavam sempre presentes as palavras de ordem contra a guerra colonial.

LIberato Fernandes

Na greve estudantil de Coimbra, iniciada em Abril de 1969, à exigência pelo fim da guerra colonial juntava-se o protesto contra a guerra do Vietname. No período que antecede o fim da ditadura era visível o carácter internacionalista, pela paz e contra a guerra: o Comércio do Funchal, como testemunhei antes de participar no jornal como colaborador, estava presente nesses movimentos e, apesar da censura, contribuía para a sua divulgação. Com frequência presenciei a atenção com que o CF era lido nos transportes públicos e a sua difusão nacional, visível em finais de 1968 e em 1969, antes da minha incorporação militar.
O CF assumia uma marca distintiva, não se confundindo com qualquer outro jornal, impondo-se como um jornal afirmativo, interveniente, que percebeu ser tempo de dar-a-cara. Afirmou-se naturalmente como parte do movimento na luta contra a ditadura, sem que tal decorresse de qualquer proclamação. Projecto jornalístico e cívico, ganhou correspondentes em todo o país, e na emigração, permitindo-lhe vencer as limitações impostas pela censura e superar as dificuldades financeiras decorrentes do ser editado numa região insular e periférica, muito mais isolada do que são hoje ambas as regiões autónomas.
Se sinalizo 1967 e o Comércio do Funchal, como marcos na luta contra a ditadura e a guerra colonial, refiro que o estertor final da ditadura tem forte expressão simbólica na queda de Salazar da cadeira, em Agosto de 1968.

 

Do “dia inicial inteiro e limpo” à “Terra da Fraternidade”

Os movimentos atrás referenciados contribuem para a mudança e confluem na madrugada de Abril, com o êxito do movimento militar.
Na noite de 24 para 25 de Abril, redactores e colaboradores do CF, voluntários no trabalho de expedição, são surpreendidos pela revolução. Os primeiros momentos são de apreensão e expectativa. Grândola, canção transformada em hino, confirma ter finalmente caído a ditadura, sem tiros, como se tratasse dum castelo de cartas. Grândola garante o sentido progressista do movimento militar.
O levantamento militar de Abril, não originou baixas, mas não teria existido sem a longa guerra travada contra o estado novo em várias frentes, desde início da década de 60: a minha geração tinha testemunhado o regresso dos militares prisioneiros da Índia e continuou a assistir ao retorno dos sobreviventes das primeiras companhias enviadas para as colónias de África.
O 25 de Abril é fruto dessa guerra aberta e violenta, mas é também fruto das lutas abafadas que se multiplicavam no final da década 1960/70 e se intensificam na primavera Marcelista: abrangendo sectores tão diversos como a greve dos pescadores (Matosinhos, Abril de 1968), as greves dos trabalhadores ferroviários e da Lisnave, em Novembro e Dezembro do mesmo ano. As acções contra a ditadura diversificam-se, somando-se ao movimento grevista inúmeras acções,que vão das vigílias nas Igrejas, aos actos de sabotagem a unidades militares.
A madrugada do “dia inicial inteiro e limpo” a que assistíamos pela rádio, enquanto procedíamos aos preparativos para a expedição do jornal “cor-de-rosa”, parecia espetáculo visível, para quem conhecia o local central das operações militares: a baixa de Lisboa e o Carmo. Os acontecimentos ocorridos entre o 25 de Abril e o 1º de Maio excederam as expectativas. O movimento venceu e, no Funchal, traduziu-se na grande adesão popular à manifestação do 1º de Maio de 1974 contra a presença de Marcelo Caetano e Américo Tomaz.

Das grandezas e das fraquezas do sistema

A realidade que nos cerca não pode ser mitificada e escondida: vivemos num país pobre, endividado, marcado pela corrupção, e com desenvolvimento desigual – na parte continental, há um interior cada vez mais despovoado, que o torna Portugal num país arquipelágico, separado da Espanha por um quase deserto, humanamente envelhecido. E, como estão as regiões insulares da Madeira e Açores, que dispõem de autonomia politica incomparavelmente maior do que relativamente a regiões de outros países da Europa?
As regiões autónomas registam das mais altas taxas de pobreza, taxas de desemprego superiores a 10% e trabalho precário. Excluindo o Turismo, tanto o sector primário como o secundário, não registam aumento de produtividade comparativamente proporcional ao desenvolvimento técnico-científico registado nas últimas quatro décadas.
Esta realidade pode-nos levar a concluir que, para nada serviram as transformações ocorridas após o 25 de Abril. Nada de mais errado: o 25 de Abril representou a maior transformação histórica ocorrida em Portugal desde a expansão marítima dos séculos XV e XVI que construiu o 1º império oceânico da história da humanidade. Nos três curtos anos após Abril, Portugal pôs fim, fora de tempo, a um império colonial com meio milénio. No 25 de Abril os portugueses puseram fim a guerra que se prolongava, em três frentes, há mais de uma década.
Na Madeira, para além das conquistas próprias e comuns a um estado democrático e de direito, foi abolido um regime de propriedade da terra feudal ( o regime de colonia, assente na Lei das Sesmarias ), introduzido aquando do povoamento das ilhas, promulgado pelo último rei da 1ª dinastia, em 1375 por Fernando I.
Tudo tem o seu tempo. As mudanças que a Madeira, os Açores e o País precisam são as que o mundo precisa. Manifestamente, não se irão concretizar enquanto a Humanidade não entender que o sistema capitalista, assente na competitividade extrema. O lucro não pode ser quem comanda os nossos destinos, mas, a tarefa de alterar o sistema assente na exploração estava( e está )para além da capacidade e dos objetivos das movimentos que produziram as transformações ocorridas há 40 anos. Esse objectivo só é realizável assente na ideia de que as soberanias só se realizam no quadro da Internacional; ou, para melhor entendimento, no quadro da cooperação entre nações.
A cooperação é um acto de liberdade e de fraternidade e, ou a Humanidade se entende na  concretização da cooperação, e tem futuro, ou tenderá a repetir por uma terceira vez as duas guerras  do século XX.
Será que as regiões insulares ficarão imunes a uma guerra realizada com a actual capacidade destrutiva?

Açores 16 de Março de 2017

Liberato Fernandes

Guardar

Comentários

comentários

Deixar uma resposta

SRETC | DRC | CEHA | Madeira