20 de Fevereiro 2010 – História de uma fotografia

20 Fevereiro de 2010 – Funchal, Ilha da Madeira – Portugal.
Fotos para Livro 20 Fevereiro
Temporal que se abateu por toda a Ilha.
Fotos – Octavio Miguel Vieira Passos

Às 9 horas e 30 minutos, ao passar a conduzir no Campo da Barca no Funchal, debaixo de uma chuva intensa apercebia-me que alguma coisa não estava bem, quando vejo a Ribeira João Gomes a galgar as margens, cuspindo pedras e água com uma força brutal para a estrada.
Depois de conseguir chegar à zona do alto da Pena, montei todo o equipamento fotográfico. A chuva não dava tréguas, as pessoas dirigiam-se para as janelas das suas casas, com ar assustado, quando ouço um estrondo vindo da Estrada Luso Brasileira, faço a primeira fotografia do amontoado de carros embatidos na sequência de curvas contra curvas daquela estrada, onde de fundo ouvia gritos de desespero. Em fração de segundos, num levantar de cabeça enquanto me aproximava da zona onde estavam os carros embatidos, vejo um corpo projetado de uma casa sendo arrastado pela enxurrada rua abaixo…
Esta introdução é uma descrição do início dos dias mais difíceis que passei na minha vida, tanto profissionalmente como pessoalmente.
Ao chegar ao centro do Funchal, o caos estava instalado, ruas inundadas, pedras, troncos, lama por todo o lado, vou fotografando o que assistia até à Rua Fernão de Ornelas, onde deparo-me com um nível de água superior à porta do parque de estacionamento do Centro Comercial Anadia. Um bote dos Sanas evacuava as famílias impedidas de sair das suas casas.
De frente para o Mercado dos Lavradores, vejo um indivíduo com a intenção de atravessar a rua imersa por uma corrente enorme de água. Com a ajuda de dois jovens próximos de mim, alertamos o senhor para não se arriscar devido à força da água que era muita! Não nos dando ouvidos, seguiu caminho! Em segundos, comecei  a fotografar toda a sequência, até fazer para mim a fotografia mais descritiva do que foi verdadeiramente o 20 de Fevereiro; um registo positivo onde os dois jovens, ambos de nome Mário,  salvaram o homem prestes a ser arrastado pela água.
Depois dessas sequências dramáticas, dirigi-me ao Diário de Notícias, revelando assim ao mundo a tragédia que nos assolou.
Os dias que se seguiram foram dolorosos, árduos, mas com espírito de união e esforço de todos os Madeirenses em reerguer a Ilha. A procura de sobreviventes era constante, assim como a esperança de obter notícias por parte das famílias e amigos. Foi difícil presenciar e sentir a aflição, angústia de pessoas que em instantes tudo perderam.
As imagens do 20 de Fevereiro são imagens directas, documentais são uma poderosa denúncia contra a injusta e cruel força da natureza face à qual o ser humano não tem qualquer poder. Graças à fotografia à disciplina do enquadramento aprendi a conhecer o mundo e a conhecer-me a mim próprio.
Como fotojornalista o objectivo é publicar o meu trabalho nos meios de comunicação social, como forma de comunicação verdadeiramente real, pura e verdadeira.
Hoje através do meu trabalho, sei que deixei um marco que ficará para sempre na história da Ilha da Madeira.

Texto de Octavio Passos, Fotojornalista

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