A Revolta da Madeira…

A instabilidade política nacional e o afrontamento entre os vários sectores políticos nacionais não deixaram as ilhas de parte e teve nelas um momento de violência com as atividades dos revoltosos de 1931, que aconteceu na Madeira e estava para acontecer nos Açores, mas que a precipitação dos madeirenses, por força da revolta da farinha, em fevereiro, impediu que fosse um movimento como havia sido planeado.

Desta forma, acabou por acontecer apenas a revolta no Funchal a 4 de abril de 1931, que é considerada nos anais da História da Ditadura e da luta antifascista, o evento mais relevante dos madeirenses, que fez abalar a força do regime implantado em termos nacionais. Note-se que, cerca de um mês, de 4 de abril e 3 de maio de 1931, esteve em pleno exercício de funções um governo provisório na Madeira.
Para Cândido Forjaz, em Lisboa, o ano de 1931 revela-se com a continuidade da agitação politica e social que documenta de forma pormenorizada à sua namorada. É um diário de tudo isso, eivado de preocupações e comentários. Mas o pior estava para acontecer com a revolta dos deportados políticos na ilha da Madeira, a 4 de abril. Teve notícia dessa situação, por telegrama e mantém a ansiedade e temor do futuro: “Tudo isto, meu amor, prova que nós viemos a este mundo em uma época em que se vive em constante sobressalto e sem nunca haver certeza do que será o dia de amanhã”(carta de 6/4/931).
O temor, porém, não se concentrava na Madeira mas sim em Angra do Heroísmo, com a possibilidade de alastramento do fenómeno madeirense. E as suas expetativas tornaram-se realidade com movimentos em Angra que conduzem a algumas prisões. As notícias idas dos Açores, em carta de 8 de abril, provam e documentam esta instabilidade e situação.
9 de abril:

CF– Estou cada vez mais preocupado com o que se passa aí pois parece que se confirma ter a guarnição daí aderido aos revoltosos e a confirmar isso está o ter o Lima voltado para trás e atracado hoje, às 6 da tarde. (…) Aqui está tudo de prevenção rigorosa mas tem estado tudo sossegado e os teatros funcionam. (…) Ainda agora pedi, pelo telefone, ao José Cunha que inquirisse junto do Bensaude das razões da volta do Lima, mas ele nada quis dizer pelo telefone. Isso não é bom sinal (…) Se reallemente é verdade vocês devem ter passado maus bocados (…)
Segundo vejo nos jornais de hoje um dos membros da revolta da Madeira é o famoso Fidelino Costa! Com tais chefes podem esperar-se grandes coisas do movimento. Deus dê juízo a todos e permita que o governo consiga dominar a situação para evitar ver-se correr muito sangue (…)

(Maço 6, doc. 21)

ML– (…) parece-me que, graças a Deus, não há nada em Lisboa. Mas tudo isto tem sido uma coisa tão extraordinária que não se sabe o que se há de pensar. Os próprios deportados estão duma amabilidade tal que é de pasmar. Dão mesmo a impressão que não estão seguros do resultado e por isso não querem deitar ninguém contra eles. O M. Rebelo e um outro, Mario Salgueiro foram ontem à noite falar com o Tio Manuel porque queriam a cifra dos telegramas do governo civil. É claro que o tio disse que a tinha inutilizado mas eles levavam um telegrama que o Tio, defronte deles e auxiliando-se de outros que tinha decifrou. Ora esse telegrama dizia que em Lisboa está tudo absolutamente tranquilo e que tinham seguido dois navios de guerra para a Madeira. Eles ficaram um pouco atrapalhados mas disseram que já tinham recebido outros telegramas depois daquele dizendo que a Revolução tinha rebentado em Lisboa às 8 da noite. (…) Foram os deportados que o mandaram entregar porque eles tomaram conta das Faleiras. Também se tem sabido coisas por pessoas que teem aparelhos como o teu e que tem apanhado noticias do estrangeiro. Realmente isto está seguindo um caminho que mais parece uma brincadeira e que me desespera é a nossa terra estar fazendo uma figura tão ridícula. A única coisa que ainda me faz duvidar de que isto não tenha importância é o motivo porque estes deportados se metem numa coisa destas sem terem a certeza do que se está passando lá fora. Diz-se aqui que eles fazem isto para obrigar Lisboa a mandar navios de guerra ficando portanto menos bem guardado para poderem tentar com êxito uma revolução. (…) Se isto volta tudo à normalidade ainda me parece mentira. (…) A respeito da desta revolução tenho muitas coisas para te contar mas não por escrito porque é mais difícil e porque certas coisas prefiro não as escrever.

(Maço 7, doc. 19)

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Acerca do Autor

Graça Alves

Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, é professora do ensino Secundário e tem participado em diversos projetos literários. Está destacada no Centro de Estudos de História do Atlântico, onde tem desenvolvido trabalhos ligados à literatura e às histórias de vida.

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