Abril – O mês da esperança

CF Cabecalho 1

Abril, mês em que se abriram as portas da Democracia em Portugal, lançando a semente da esperança num mundo melhor.
Neste mês, de muitas e gratas recordações, vamos dar ênfase a alguns cabouqueiros dessa liberdade, àqueles que lutaram por ela ainda durante a ditadura do Estado Novo, mais propriamente na “Primavera Marcelista”, com destaque para o Comércio do Funchal, vulgarmente conhecido como o “semanário cor-de-rosa”, pela cor do papel em que era impresso, que se publicou na Madeira entre 1 de Janeiro de 1967 e 1976, no cinquentenário da sua aparição pública. Foi efectivamente uma pedrada no charco em que se tinha transformado a sociedade portuguesa da década de 1960.
No mundo e em especial na Europa a revolução social e cultural estava na ordem do dia. Na Inglaterra, os Beatles iniciavam uma viragem na música pop e a minissaia fazia a sua aparição com todas as suas consequências; em Berkley, nos EUA, os hippies expressavam uma nova forma de encontrar a felicidade, fora do sistema capitalista; em Paris, uma revolta estudantil, em Maio de 1968, acaba por transformar-se numa rebelião política e social.
Em Portugal logo no começo da década, em 1961, estala a guerra colonial em Angola, a que Salazar respondeu com “Para Angola já e em força” e as graves consequências que daí advieram. Logo no ano seguinte, estala a crise académica de 1962, momento alto do conflito entre os estudantes universitários e o regime ditatorial salazarista; em 1968, Salazar cai da cadeira e é substituído por Marcelo Caetano que apresenta o regime com um novo rosto, maquilhagem rotulada de “Evolução na Continuidade”, vulgarmente conhecida por “Primavera Marcelista”. Em Abril de 1969, aproveitando esta vontade de abertura do regime e a chegada à Madeira do novo Governador Civil do Distrito, Brigadeiro Braancamp Sobral, que no seu discurso de chegada instiga os madeirenses a participar no desenvolvimento do arquipélago, um grupo de jovens tendo à frente António Loja, José Manuel Barroso, António Manuel Sales Caldeira, Helena Marques, Artur Andrade, Vicente Jorge Silva, João da Cruz Nunes, entre outros, redigem uma carta ao Governador reivindicando a democracia e maior autonomia para o arquipélago. Estes mesmos jovens vão estar na base da constituição de uma lista da oposição que concorre às eleições de Outubro desse ano. Já na década de 70, as polémicas originadas pelas vitórias no Festival da Canção portuguesa da “Tourada” e “E Depois do Adeus”, da autoria de José Carlos Ary dos Santos e José Niza, respectivamente, abrem mais brechas no regime.

Comércio do Funchal, trincheira da oposição salazarista


Apesar da feroz censura reinante em Portugal, a 2ª série do semanário Comércio do Funchal que se publicara na década de 1930 (a 1.ª série existiu apenas em 1910), que era propriedade de Alberto Veiga Pestana pai do novo director, editor e proprietário João Carlos E. da Veiga Pestana. A qualidade dos jovens que nele escrevem vai fazer com que este seja uma trincheira da oposição ao regime salazarista, lido por milhares de portugueses com incidência no continente português e na França, em especial Paris, onde se encontrava um grande número de exilados políticos e na África portuguesa, entre os militares. Este semanário teve no seu início como grandes impulsionadores os jovens, Vicente Jorge Silva, Luís Manuel Angélica e Artur Andrade, tendo sido este último que encontrou entre os jornais já desaparecidos este título disponível. O sucesso do semanário haveria depois de trazer para o seu seio outros jovens de idêntico valor como Ricardo França Jardim, que era o elo entre o semanário e os jovens universitários, José Maria Amador, José Manuel Barroso, António Henrique Sampaio, Tolentino Nóbrega, Milton Morais Sarmento, Liberato Fernandes, entre outros. Funcionou também como uma escola de jornalismo, tendo alguns destes jovens enfileirado depois nos grandes jornais portugueses, onde se destacou Vicente Jorge Silva, o grande dinamizador do Comércio do Funchal. Colaboraram ainda alguns jovens que viriam a ser nomes destacados nas letras, como Fernando Dacosta, António Mega Ferreira, José António Saraiva, João Carreira Bom, José António Barreiros, José Agostinho Batista, entre outros.
O jornal tinha um carácter informativo e crítico, apesar das limitações impostas pela Censura. Apoiou a redação da famosa “Carta a um Governador”, redigida e entregue ao Governador do Distrito do Funchal em Abril de 1969 e a lista da Madeira candidata às Eleições de Outubro desse mesmo ano, constituída por Fernando Rebelo, António Loja e José Manuel Barroso. Estas eleições suscitaram uma campanha épica, para a altura, e motivaram uma tomada de posição pública a seu favor por um grupo de padres progressistas, nomeadamente João da Cruz Nunes, José Maria Araújo, José Martins Júnior, José Vieira Pereira e Mário Tavares Figueira, que redigem uma carta de apoio aos “Excelentíssimos Candidatos a Deputados”.
Foi na sede deste semanário que se organizou a manifestação do 1º de Maio de 1974, considerada o verdadeiro 25 de Abril madeirense. Após esta data, os ideais políticos e ideológicos radicalizaram-se e as dissensões foram acontecendo dentro do Comércio do Funchal. O jornal entretanto cumprira o seu papel e a partir daqui começa a perder colaboradores e influência na sociedade portuguesa e madeirense. Vicente Jorge Silva fixa-se em Lisboa e Milton Morais Sarmento assegura a direcção do semanário juntamente com Liberato Fernandes. Mas o seu fim estava à vista.
E assim terminam os sonhos vivos e a aventura de um grupo de jovens, que fizeram parte de uma geração inconformada.

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Acerca do Autor

Emanuel JanesLicenciado em História e Mestre em História Contemporânea, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Professor e investigador de temas regionais.Ver todos os posts por Emanuel Janes →

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