Antoninho

António Augusto traz histórias na ponta dos dedos. E no ar menineiro que lhe dá os suspensórios com que segura as calças e o chapéu branco à brasileiro… Ninguém diria que tem 80 anos.

Começa por falar da felicidade. Porque da infância. Porque de gente que lhe construiu os sentires. Porque de memórias de um tempo de inocência.

Eu era da zona do Calhau. A minha mãe teve 18 filhos, acho eu, que morreram muitos. Não tínhamos brinquedos, quando encontrávamos algum carrinho de madeira, sem rodas ou partido, deixado por algum menino rico, era um tesouro… foi maravilhoso!   
No vagar que o tempo da recordação exige, Augusto diz que não trocaria a sua infância pela infância de agora,

– de jeito nenhum!

O ambiente da Rua de Santa Maria, no olhar que guardou da infância, pautava-se pela união entre os meninos do calhau. Tanto fazia brincar com o Japonês – pobrezinhos, os japoneses! –  ou o com o filho de alguma família com mais posses. Todos eram iguais na brincadeira. Na Barreirinha, ou em algum passeio de canoa, a vida era feita de um mar que os chamava e que lhes trazia o sustento.

– Tenho tantas histórias para contar…

Conheciam todas as famílias por alcunhas. Conheciam-se todos. Lembra-se e conta do sabor dos pães de leite que o avô trocava por peixe, numa casa do Lazareto ,onde viviam gibraltinos judeus. Lembra-se das bolachas torradas e partidas que a Botica – avó de muita vida – ia comprar à Fábrica das bolachas.

 

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Acerca do Autor

Graça Alves

Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, é professora do ensino Secundário e tem participado em diversos projetos literários. Está destacada no Centro de Estudos de História do Atlântico, onde tem desenvolvido trabalhos ligados à literatura e às histórias de vida.

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