Aviador madeirense José Costa chegou ao Rio de Janeiro há 80 anos

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Aviador madeirense José Costa chegou ao Rio de Janeiro há 80 anos

José Costa em frente do seu American Eagle A1 NC834W no início dos anos 30.
No próximo dia 16 de Fevereiro comemora-se o 80º aniversário da conclusão da viagem transatlântica de José Costa, com a chegada ao Rio de Janeiro.

José Costa foi um intrépido pioneiro aviador luso-americano madeirense da época de Ouro da Aviação, o primeiro madeirense com brevet de piloto, a ter um avião, e um aeroporto em seu nome. José Costa era natural da freguesia do Caniço, concelho de Santa Cruz, na ilha Madeira, onde nasceu a 22 de Fevereiro de 1909. Emigrou para os EUA com 6 anos. Conhecido lá como “Joseph” A. Costa ou “Joe” Costa, radicou-se em na cidade de Corning, no estado de Nova Iorque, onde foi piloto aviador, instrutor de voo, inspector da Administração Federal de Aviação americana, reparador e revendedor de aeronaves, proprietário e operador de um aeródromo. Filho de um funcionário dos caminhos-de-ferro imigrado com ele, foi o primeiro habitante de Corning brevetado, aos 21 anos. Afirmava que desde os tempos de criança, ainda na Madeira, desenvolveu a paixão pelo voo ao observar as gaivotas. Após terminar o curso em 1929 começou a ganhar a vida com baptismos de voo, instrução, exibições de acrobacia e largada de paraquedistas. No livro “Madeira a New Bedford: Um capítulo ignorado da emigração portuguesa nos Estados Unidos da América” o historiador madeirense Duarte Mendonça menciona relatos voos a baixa altirude na célebre Festa do Madeirense em New Bedford, Massachusetts.

Em 1932 anunciou a sua intenção de voar para Portugal, com um Lockheed Vega, o mesmo modelo que a pioneira Amelia Earhart usou para atravessar o Atlântico em 1932.A 24 de Julho de 1935 comprou finalmente um Lockheed Vega, construído em 1929, antes pilotado pelo pai do astronauta Buzz Aldrin em voos de teste de demonstração de combustível para aviação. O avião foi batizado a 20 de Outubro aeroporto de Big Flats com o nome “Crystal City”, em honra à cidade de Corning. Ostentava a Cruz de Cristo pintada na fuselagem.
Em Setembro de 1936 estava tudo a postos para descolar, com o pai a bordo, mas vários contratempos fizeram-no adiar a partida vários meses. O início da Guerra Civil Espanhola fez com que o Departamento de Estado do governo americano não autorizasse o voo directo para Portugal,. Temiam as autoridades americanas que um erro de navegação pudesse fazer o avião entrar em espaço aéreo espanhol e gerar algum incidente diplomático. O conceito do voo foi reformulado e transformou-se então num meio de reforçar a ligações entre os dois países, ligando a “Cidade do Vidro” ao estado do Pará, “Cidade da Borracha”. Foram obtidos fundos com um postal comemorativo da intrépida viagem, do qual o autor possui um original.
Finalmente começou a viagem a 10 de Dezembro de 1936 do aeroporto de do American Airlines Field (agora Elmira-Corning Regional Airport) com destino a San Juan, Porto Rico, com escala em Miami. A seguir uma fuga de combustível obrigou-o a aterrar em Santo Domingo, na República Dominicana, a 30 passos da fronteira com o Haiti. Estando autorizado a aterrar no Haiti, mas não na República Dominicana, foi imediatamente preso. Após uma chamada de Porto Rico, foi libertado no dia a seguir para que seguisse viagem evitando problemas burocráticos. A seguinte perna foi para Paramaribo na então Guiana Holandesa (actual Suriname) e de lá saiu com destino a Belém, no Brasil, onde chegou a 19 de Dezembro. Permaneceu uns dias a visitar um tio madeirense, fazendo pausa até ao ano novo. A parte mais complicada da viagem viria a seguir, um voo longo por cima da selva até ao Rio de Janeiro, que iniciou a 15 de Janeiro de 1937. Por falta de gasolina, viria a aterrar de emergência num campo em Serro, no estado de Minas Gerais. Apesar de estar a aterrar num descampado, o campo da Boa Vista, o trem embateu num formigueiro, arrancando-o do avião, e a asa embateu no chão e, infelizmente o Vega ficou destruído. Muito contribuiu a inexactidão das cartas de navegação que omitiam montanhas em rota. Não existia sequer a tecnologia de radar, nem havia qualquer tipo de controlo de tráfego áereo nos moldes actuais.
Cumprem-se agora os 80 anos do término da viagem, que só se concluiu um mês depois. José Costa ainda chegou ao Rio de Janeiro a voar, completando a 16 de Fevereiro o último trecho no cockpit de um WACO da Aviação Militar Brasileira.
Pese ao ter de abortar a empreendedora viagem, foi alvo de várias homenagens do Brasil, feito amplamente noticiado em jornais locais. A comunidade portuguesa fez-lhe diversas honras, tendo sido convidado para visitar centros culturais e a participar em vários eventos, em Petrópolis, Niterói, e no Carnaval de Belo Horizonte. Também foi recebido na embaixada Portuguesa e na Americana.
O feito é relatado no livro “ Revolution in the Sky: The Lockheeds of Aviation’s Golden Age” de Richard Sanders Allen. Esta seria a derradeira tentativa de um voo transatlântico da época de ouro dos pioneiros da aviação. Fundou uma empresa de aviação que ainda hoje tem o seu nome, Costa Flying Service, actualmente a empresa de aviação mais antiga de Nova Iorque. Opera no aeroporto Corning–Painted Post Airport que chegou a ostentar o nome “Costa Airport” nos anos 40 e 50. Em 1993 recebeu o “Aviation Pioneer Award” do Empire State Aerosciences Museum, em reconhecimento pela sua contribuição para o desenvolvimento e avanço da “general aviation”. Em 1994 recebeu o “Lifetime Achievement Award” do Rochester Flight Standards District Office da Federal Aviation Administration, e o “Certificate of Appreciation” do U.S. Department of Transportation, Federal Administration Administration, Eastern Region em reconhecimento dos seus 65 anos na aviação. José Costa foi um romântico da aviação como já não se fazem hoje em dia, tendo pilotado até aos seus 84 anos.
José Costa faleceu em Corning a 11 de Novembro de 1998, mas o seu legado continua a voar. O seu filho Joseph R. Costa, também piloto, ficou a gerir a Costa Flying Service e é actualmente director do aeroporto. Este trabalho de investigação nunca teria sido possível se a família de José Costa não tivesse guardado registo dos feitos, inclusive jornais com mais de 70 anos, que me foram facultados pela Srª Manuela Marques, sua sobrinha neta. Passaram por três gerações, recebeu-os da sua mãe, filha da irmã de José Costa, que os guardou na altura. Agradecimentos especiais ao historiador Kirk W. House, da Steuben County Historical Society, à Corning Painted-Post Historic Society, National Soaring Museum de Harris Hill e ao grupo Wings of Peace pelas fotografias e registos fornecidos. A parte final deste artigo foi escrito a bordo de um avião da TAP Portugal num voo Lisboa Funchal, o Airbus A320 “Aquilino Ribeiro”, pilotado pelo comandante R. e co-piloto F. P.

Texto de José Luís Freitas

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