Bandeiras Cruzadas: memória e identidade

Madeira Venezuela

“Origens islenhas (…) somos parte da condição insular. Somos gente nascida na infância eterna da nossa ilha. (…) o azul do firmamento e o silêncio do mar. (…) do cimo da ilha da minha infância, via-se o mar (…) ao largo, próximo da linha do horizonte, passavam grandes e luxuosos navios brancos (…) Ficava para ali, horas sem fim, a ver extinguirem-se os navios ao longe ou entrando provavelmente pelo céu dentro, no tal ponto onde findava o mar e o seu azul distante se unia ao firmamento por um fio. (…) E, ao contrário do que então supunha, ele não se colava ao firmamento lá longe, na linha do horizonte. Visto do alto dos navios, parecia até não ter caminhos de ida nem de regresso” (João de Melo, Açores. O Segredo das Ilhas, 2016).

 

Bandeiras Cruzadas: memória e identidade

Nas ilhas, a fusão do tempo e do espaço, referida por João de Melo, gera um sentimento identitário muito forte. É esta identidade do Arquipélago da Madeira que o projeto Nona Ilha pretende resgatar, através da memória e arquivo das histórias de vida das mobilidades de famílias madeirenses no mundo: Trindade e Tobago, Havai, Brasil, Curaçau, Venezuela, África do Sul, Austrália, Estados Unidos, Canadá, França, Reino Unido, etc. As limitações de dinheiro e dos transportes não impediram a partida dos madeirenses, mesmo dos mais pobres, que pediam dinheiro emprestado para comprar a passagem de barco, em busca de novos horizontes. Partiram sem conhecer a língua e a cultura dos países de acolhimento porque a necessidade assim obrigava, por falta de condições de formas de subsistência, de trabalho e de futuro na Madeira. Levaram consigo as saudades da família e da sua terra, a realidade e o imaginário das ilhas, as tradições gastronómicas e religiosas, musicais e linguísticas (populares e regionais), reconstruindo a sua identidade em várias partes do mundo, voltando de visita, regressando parcial ou totalmente ou não voltando. Sempre houve fluxos e refluxos migratórios, nomeadamente do Curaçau, da África do Sul e da Venezuela. Pois, há uma constante circulação de madeirenses, como escreve Nelly de Freitas, “transitando por vários destinos em diferentes momentos de suas vidas”. Menciona que as entrevistas orais, depoimentos ou relatos de vida da História Oral permitirão a construção de bases de dados para poder tratar a extensa e variada recolha e “a combinação de análises quantitativas e qualitativas apresenta-se como uma importante estratégia na organização da obra”. No que diz respeito ao estudo da língua que, tal como a História, pertence às Ciências Sociais, é útil a metodologia da Linguística de Corpus e os conceitos de “língua de herança” e “bilinguismo”, “code-switching”, “variação” e ainda “redes sociais”, da Sociolinguistica, sendo fundamental a questão da complexidade da língua falada ou da oralidade e da sua transcrição ou passagem à escrita, nos corpora orais das entrevistas realizadas aos madeirenses que estão ou estiveram em diferentes países de acolhimento.

Numa mesma época e numa mesma família, uns irmãos partiram para a África do Sul, enquanto outros foram para o Brasil e Venezuela. Alguns madeirenses experienciaram várias mobilidades, não só idas e regressos de visita, mas também novas idas e regressos definitivos para morrer na sua terra, e outros mobilidades entre vários países de acolhimento, sempre à procura de melhor sorte. Deste modo, línguas e culturas entram em contacto, entrecruzam-se, originando interculturalidades e identidades partilhadas. Contudo, apesar de integrarem costumes da nova cultura, os luso-descendentes nunca chegam a pertencer ao país de acolhimento, à terra onde nasceram, porque são considerados estrangeiros, ou seja, são vistos como portugueses ou madeirenses lá fora e, por exemplo, venezuelanos cá. Muitas vezes, a terra dos pais chama: os sentimentos, os parentes, os cheiros, a comida, as raízes, a paisagem, os sons, as tradições, isto é, as memórias afetivas, gustativas e olfativas. Entre margens, sentem-se sem terra.

Neste ano do projeto que é dedicado à Venezuela, a imagem da bandeira deste país juntamente com a da Madeira surgiu de uma memória da minha infância de bordar em tela as duas bandeiras cruzadas, para enviar como lembrança para os familiares e amigos emigrados na Venezuela. Ao nos centrarmos na emigração madeirense para este país, não podemos deixar de olhar para a atualidade dos luso-venezuelanos que regressam às suas origens insulares e para as mudanças sociais e culturais daí resultantes. Como indica Alberto Vieira, na Newsletter nº 45 (agosto de 2016: 8), “na atualidade, a imagem do retorno é denunciada pela presença de emigrantes e descendentes da Venezuela. Aliás, este país terá sido o que proporcionou mais regressos à ilha, que tiveram um evidente impacto na sociedade local. (…) Ouve-se com frequência falar castelhano em quase todos os sítios. Nota-se a presença da cultura sul-americana na alimentação, música, alimentação, usos e tradições, na doçura das palavras. (…) mudou o ambiente, como os sons, os cheiros e o colorido das pessoas. (…) e ficamos mais abertos e divertidos”. No entanto, ao regressar à Madeira, por escolha ou por necessidade de segurança, nem sempre é fácil se integrar na sociedade madeirense.

Posto isto, alguns entrevistados, que vêm de um ambiente multicultural e mesmo transcultural resultante da mistura de povos e culturas que caracteriza a Venezuela, relatam que estão a sentir-se discriminados pelos madeirenses por serem venezuelanos. Trata-se do mesmo tipo de discriminação que os nossos emigrantes sentiram ao chegar à Venezuela e ao Brasil, porque eram, na sua maioria, camponeses humildes com fraca escolarização, embora a maior parte dos jovens venezuelanos que chega hoje à Madeira tenha formação superior e as partidas e chegadas de barcos no porto do Funchal ainda façam os ilhéus que ficaram sonhar com a partida.

Naidea Nunes

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