“C.F.”: Um fenómeno extraordinário

CF 8 De Novembro 1970 Destaquea

Não é exagerado classificar o “Comércio do Funchal”, o “C.F.”, como era conhecido na época da publicação da sua IIª série, como um fenómeno extraordinário.

Extraordinário por ter nascido numa ilha, distante de quase tudo e numa sociedade profundamente conservadora.

Extraordinário por ter rompido as fronteiras da ilha e ter-se transformado num semanário avidamente lido no resto do país e até no estrangeiro.

António Henrique Sampaio

Extraordinário ainda porque no auge do seu sucesso, em particular nos anos em que as suas vendas ultrapassavam largamente o número de exemplares de que hoje o “independente” cá do burgo reclama como tiragem, conseguiu manter uma pluralidade de opiniões, entre as diversas correntes políticas que se opunham ao regime fascista, ao contrário do que sucedia com a generalidade da demais imprensa ideologicamente mais comprometida com essa mesma oposição, como, por exemplo, as revistas “Seara Nova” e “O Tempo e o Modo” e o jornal “Notícias da Amadora”.

Foi certamente um pouco por tudo isto que o grande impulsionador do Congresso Republicano de Aveiro, o advogado Mário Sacramento se referiu ao “C.F.” como “extraordinário e quase miraculoso”.

Na verdade, o “C.F.”, sendo um jornal nascido no Funchal, era sobretudo um jornal aberto ao País e ao Mundo. Um jornal que, como forma de procurar contornar os limites impostos pela censura à imprensa, abriu as suas páginas à análise das questões internacionais, à difusão da cultura e ao debate e confronto de ideias.

Graças a um vasto leque de colaboradores, provenientes do país e até do estrangeiro, tudo ou quase tudo foi dissecado nas suas páginas: desde o Concílio Vaticano II, à invasão da Checoslováquia pelas tropas soviéticas, à guerra no Vietnam, ao Maio de 68 em França, ao conflito sino-soviético, às viagens à Lua, ao golpe militar no Chile que derrubou o governo de Salvador Allende, à crise petrolífera do início dos anos 70. Idêntica cobertura foi dedicada à problemática cultural, em particular à crítica de cinema, de teatro, de televisão, bem como à reportagem, quer incidindo sobre questões de âmbito nacional e regional, quer junto dos emigrantes, de modo especial dos que viviam em países europeus.

Também desde o início da sua republicação que, para o “C.F.”, se tornou claro que o Arquipélago da Madeira, como então se designava esta Região, necessitava de efectivos poderes autonómicos de que não dispunha. Não é, com efeito, por acaso que a célebre Carta ao governador civil de então, coronel Braamcamp Sobral, elaborada em Abril de 1969, com o activo contributo de redactores do CF, e de que fui signatário, tivesse expressado claramente que “o problema do Estatuto de Autonomia é esta constatação simples de que a autonomia é quase meramente nominal”, por ser “uma autonomia altamente condicionada e fiscalizada, totalmente sujeita à política do governo central”.

Uma posição que meses volvidos, nas eleições legislativas de Outubro de 1969, seria reafirmada pelos candidatos da lista, apresentada pela Comissão Eleitoral Democrática da Madeira, de que fazia parte o jornalista do CF, José Manuel Barroso, nestes termos: “É sobretudo urgente (e este é o problema essencial da Madeira) que o arquipélago tenha a liberdade de discutir os seus próprios problemas e escolher as suas próprias soluções através de um Estatuto de Autonomia que garanta uma autonomia autêntica; um Estatuto de Autonomia que nos permita a escolha dos dirigentes da administração local (regedores, presidentes, vereadores e vogais das Câmaras Municipais e Junta Geral)”.

Posições que inequivocamente testemunham como a bandeira da defesa da autonomia foi erguida bem antes do momento em que aqueles, que mais tarde procuraram apropriar-se da sua criação, se dedicavam a tecer loas à unidade da pátria “do Minho a Timor”.

Uma bandeira, a da autonomia, a que o CF se voltou a associar quando na sua edição de 1 de Julho de 1974 fez ampla divulgação da Assembleia da UPM (União do Povo da Madeira), ocorrida a 29 de Junho, no pavilhão do Liceu, e em que se constava que “a Madeira sempre viveu numa situação de dependência tipicamente colonial” e em cujo programa de acção imediata se advogava a luta geral pelo fim dessa situação “ de dependência e opressão colonial” e “por uma autonomia económica e administrativa completa do nosso arquipélago em todos os aspectos”.

No plano meramente pessoal é com orgulho que recordo a ligação que mantive com o “C.F.”: inicialmente como simples leitor, posteriormente como modesto colaborador e mais tarde, nomeadamente no período imediatamente anterior e no pós 25 de Abri de 1974, como redactor. Uma ligação em que fiz um pouco de tudo: revi provas de tipografia, entreguei provas nos serviços de censura, participei colectivamente na sua dobragem, fiz síntese noticiosa, reportagem, entrevista, análise política, escrevi com nome próprio e através de pseudónimo quando estava a estudar no Continente e a cumprir serviço militar. E quando o CF se ligou umbilicalmente à UPM cheguei a escrever grande parte do conteúdo de muitas das suas edições.

Essa ligação – que só não foi mais intensa porque entretanto o serviço militar se intrometeu – é responsável pelo interesse a que, desde então, nunca mais deixei de dedicar ao jornalismo, mantendo uma colaboração regular com diversos projectos jornalísticos e publicações, regionais e nacionais. Um gosto gratificante que devo ao CF. O semanário “cor-de-rosa” que pode ser justamente recordado como uma referência do jornalismo português. Até por ter sido um espaço de liberdade – pese embora o lápis azul da censura – partilhado por um vasto conjunto de pessoas que viriam a atingir um lugar cimeiro em diferentes áreas, como são os casos de Vicente Jorge Silva, José Manuel Barroso, António Mega Ferreira, Fernando Dacosta, José António Saraiva, Ana Navarro Pedro, Nuno Rebocho (L. H. Afonso Manta), Maria Lamas, António José Saraiva, Hélia Correia, José Agostinho Batista, Mário Vieira Carvalho, António Jacinto Rodrigues, José António Silva Marques, José Freire Antunes, José António Barreiros, para citar apenas alguns nomes.

Funchal, 14 de Março de 2017

António Henrique Sampaio

Comentários

comentários

Deixar uma resposta

SRTC | DRC | CEHA | Madeira