Caderno Memória 03: O poio na humanização do território e na construção da agricultura madeirense

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Caderno Memória 03: O poio na humanização do território e na construção da agricultura madeirense

C Memoria 03 Poio

A Madeira protagonizou um papel importante na História da Agricultura no Espaço atlântico, catapultando a agricultura europeia para o mundo atlântico, que experimentou de forma eficaz, produtos e técnicas de cultivo e transformação, que permitiram gerar riqueza e encontrar, por vezes, solução para as necessidades alimentares europeias.

É notável a obra de mais de quinhentos anos dos europeus no processo de apropriação e humanização do solo. Por falta de condições, o homem construiu a casa e o poio donde extrai o seu sustento à beira ou em pleno abismo.


O deslumbramento foi total. A fertilidade do solo excedia os padrões europeus, deixando todos boquiabertos. Um dos mais significativos testemunhos disso do Cónego Jerónimo Dias Leite que escreveu, na década de setenta do século, tendo por base testemunhos escritos e orais. Segundo ele: (…) tudo frutifica grandemente, em tanto que de cada alqueire de trigo que semeavam, colhiam o menos sessenta alqueires: e as rezes e o gado ainda mamavam e já pariam tudo se dava em abundância, e não semeavam coisa que não multiplicasse em tres dobro com muita fertilidade, e grossura, e viço da terra.

LEITE, Jerónimo Dias, 1947, Descobrimento da ilha da Madeira (…), Coimbra, p.19.

A primeira e principal riqueza gerada pelos europeus nas ilhas e que despertou a curiosidade e o empenho dos europeus, foi a dos cereais. Disso faz eco Diogo Gomes referindo que, na Madeira, era tão fértil o solo que uma medida dava 50 e mais, e assim dos outros frutos da terra que semeavam. E tinham ali tanto trigo que os navios de Portugal, que por todos os anos ali vieram, quase por nada o haviam, enquanto, em S. Miguel, diz que há tanta quantidade de trigo, que todos os anos ali vão navios e trazem para Portugal.

GARCIA, José Manuel, 1983, Viagens dos descobrimentos, Lisboa, pp. 52-53.

Em 1511, Simão Gonçalves da Câmara reporta-se a esta situação, do seguinte modo: que vendo a qualidade da terra desta ilha e a temperança dela pareceu-lhe que se podia dar açucares e sabendo a aspereza da terra e os grandes trabalhos que os primeiros povoadores tinham em a romperem determinou como muito virtuoso ajudar a seus lavradores e também pelo proveito que lhe disso seguia de mandar trazer a planta das canas a esta terra e ordenou e quis que pondo ele adita planta em cada um ano e os lavradores pudesse o esmoutar e tirar e lavrar e plantar.

ANTT, C.C., 1ª parte, maço. 27, doc. 22.

A fertilidade da ilha decaiu muito relativamente ao período das primeiras culturas. A cultura sem descanso dos terrenos tornou os fracos espaços em muitos lugares e de tal modo que os abandonam periodicamente, tendo de fcar de poisio três ou quatro anos. Depois desse tempo, se não crescer nenhuma giesta como sinal de fertlidade futura, abandonam-nos, com estéreis. A actual aridez de muitas das suas terras atribuem-na simploriamente ao aumento dos seus pecados.

1689, John Ovington, in Aragão, António, 1982, A Madeira vista por Estrangeiros. 1450.1700, Funchal, p. 201.

(…) E a Ilha patenteia-se severa, imponente, hostil, sem que abra os braços morenos e acolhedores de uma praia em que as ondas, cansadas, docemente se espreguicem, sem uma angra calma onde venha, mansamente, desaguar um rio.
Tudo é inóspito e caliginoso neste cenário apocalíptico: falésias a pique sobre o mar, alcantis sobre alcantis; muralhas basálticas que dir-se-iam chamuscadas por labaredas infernais; vales sinistros cuja fauce medonha a bruma esconde. Rugem e esbravejam as caudalosas torrentes, ocultas pelos arvoredos, ao despenharem-se desfiladeiros, e de fraga em fraga se repercute o uivo clamoroso. Nuvens negras e tempestuosas escondem as cumeadas da aspérrima montanha e, por toda a parte, até onde a névoa consente antever, estende-se a floresta virgem.
(…) Ora a Madeira é melhor do que tudo isto: é a epopeia do trabalho, a glorificação do esforço humano. Tão presente está por toda a parte a influência do homem, o fruto magnífico da sua labuta heróica, o rude afago das suas mãos calosas e ásperas, que a paisagem, por assim dizer, se embebeu dessa presença e se humanizou. Por que não admitir que a Madeira tenha uma alma e tenha um coração? Um coração em que se fundiram os corações de todos aqueles que durante cinco séculos por amor dela lutaram e sofreram; uma alma em que se fundiram as almas de justos e de pecadores, de nobres e de vilões, de escravos e de homens livres de todos aqueles que no decorrer de meio milénio, ou com o esforço rude dos seus braços, ou com a sua inteligência, a sua coragem, a sua fé, e irmanados por um amor sem fim a este palmo de terra, escreveram a mais bela epopeia agrícola de que se pode orgulhar um povo.
A Madeira que nos comove e nos deslumbra é a Madeira heróica, campo de luta do homem contra as forças hostis da Natureza; e para a sentirmos, e para a compreendermos, não vejamos a Ilha do fim para o princípio, do sul para o norte, como é costume, mas do princípio para o fim. Antes do diamante lapidado, apreciemos a matéria bruta que consentiu tal prodígio e debrucemo-nos sobre o titã que realizou tal milagre.
(…) A luta com a Natureza rebelde fortaleceu-lhe o ânimo; suportou durante séculos infortúnios e iniquidades, fomes e injustiças, sem que se alterasse a sua bondade ingénita. Não venceu a rocha apenas com a picareta e a força dos seus músculos, senão com a férrea tempera a sua indómita coragem.
(…)Para compreender e para amar a Madeira não basta, pois, debruçarmo-nos maravilhados, como poetas, perante a inexprimível e aliciante beleza desta Ilha mitológica: rochedo de Cíclopes perdido na glauca e ondeante campina de Anfitrite, e em cujas serranias tenebrosas Flora e Pomona fizeram brotar o horto mimoso e florido, que amorosamente granjeiam, com suas mãos peregrinas, sob o afago tépido de uma perpétua Primavera.
Para compreender e para amar a Madeira, não basta vivermos, como artistas, o deslumbramento deste mundo de beleza; admirarmos a Ilha acolhedora, florida, gentil, nos seus jardins magnificentes, na euforia das flores, na sedução e no milagre da paisagem. Não basta que nos detenhamos, comovidos e extasiados, perante a grandiosidade das agrestes serranias, ou a modelação torturada dos montes, e nos deixemos embeber da doce poesia da terra, do mistério da bruma, da melancolia das montanhas verde-negras que emergem das névoas para de novo nas névoas se diluirem, como que a arrastar a nossa fantasia para o irreal, o vago, o sonho …
Para amar e para compreender a Madeira, temos que nos debruçar sobre a Ilha mártir, sobre o que ela contém de dramaticamente humano, de tenso e de comovente; ver o homem humilde, rude e simples, nas suas mudas angústias, na sua persistência heróica e na sua imensa grandeza. É preciso que o pensamento se detenha um momento sobre esta epopeia rústica, tecida de tragédia, e que nos debrucemos, enfim, num gesto caloroso de solidariedade humana, de compreensão e de enternecida simpatia, sobre a Madeira que moureja porfiadamente para ter mais terra, e para que dessa terra venha a brotar mais pão.(…)

(NATIVIDADE, Joaquim Vieira, 1954, Madeira. Epopeia Rural, pp.4-5, 11-12, 17-18).


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Acerca do Autor

Alberto Vieira

Investigador-Coordenador na área da História, é licenciado e doutorado em História. Foi diretor do CEHA e coordenador de vários seminários e encontros na âmbito das Ciências Sociais e Humanas. Como insular, é um defensor da Nissologia/Nesologia como “ciência para a investigação e estudo das ilhas”. É o coordenador do projeto “MEMÓRIA”.

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