Cadernos Madeira-Rota do Ouro Branco – 01: “Em torno da “Economia do Céu”

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Cadernos Madeira-Rota do Ouro Branco – 01: “Em torno da “Economia do Céu”

Sjeronimo Museuartesacra

A economia tradicional assenta nas trocas que se operam no mercado, baseadas no valor dos bens e serviços, enquanto a economia da oferta, da dádiva, do dom, da doação, assenta no valor de uso de objetos e ações.

Queremos introduzir um outro conceito de economia, que designamos do Céu, em que a aplicação assente em valores definidos pela religiosidade e espiritualidade. Aqui, a troca, embora aconteça no espaço de interação humana, tem subjacente esta realidade e tem em conta finalidades distintas que comandam a partilha, a doação e que se prendem com a religiosidade e espiritualidade.

Daí que entendamos o consumo de excedentes e da riqueza da economia açucareira madeirense nos séculos XV a XVII, materializada em dádivas de pintura, escultura, construção de templos religiosos, dentro deste contexto.

Há uma intencionalidade social, que se confunde com a gestão da economia do sagrado e que pretendemos valorizar nesta breve aportação, na medida em que se trata da realidade económica que está subjacente à riqueza gerada pela produção açucareira da ilha da Madeiras, nos séculos XV a XVII. É, pois, no âmbito da “economia do céu” ou do sagrado que nos propomos analisar a importância que assume, na História da Madeira dos séculos XV a XVII, a presença e impacto da pintura, escultura, nomeadamente de origem flamenga. A dádiva e o consumo dos excedentes parte da riqueza acumulada, para atuar como forma de expiação, no plano religioso e espiritual.

A Economia do Céu ou da salvação, em nosso entender, é o sistema de troca que se estabelece em torno do processo de salvação da Alma, através da utilização de bens materiais, através missas, ofertas e legados perpétuos.

Vivemos numa sociedade capitalista onde dominam, em tudo, as leis do mercado, pelo que se torna difícil entender uma sociedade sem o dinheiro como medida de valor. Todavia, outras sociedades houve em que o dinheiro não existia e o sistema de trocas não obedecia a uma medida de valor regulada. Os estudos de alguns antropólogos e sociólogos, relativamente a finais do século IX e o primeiro quartel da centúria seguinte, trouxeram ao nosso conhecimento algumas sociedades ditas primitivas, em que o sistema das trocas comunitárias não se subordinava a uma lógica do valor atribuído pelo mercado capitalista, determinado pela moeda. Era uma realidade distinta que desvelou grande entusiamo de alguns estudiosos e funcionou, muitas vezes, como via de oposição ao capitalismo moderno.

São, principalmente, os estudos de Marcel Mauss (1872-1950), Branislaw Kasper Malinowski (1884-1942), Fanz Uri Boas (1858-1942), Karl Polanyi (1886-1964) e Maurice Godelier (1934) que confirmam este conhecimento. A partir daqui define-se uma dinâmica de mercado, que se alheia do valor atribuído pelo capital aos produtos envolvidos e que valoriza a importância pessoal ou grupal que assume. As trocas que são estabelecidas, assim como os mesmos produtos, que atuam no sistema monetarizado, perdem esse valor e ganham outro, de caráter subjetivo, que não pode ser quantificado, mostrando-nos uma realidade fora da racionalidade económica1. A moeda não existe, nem é substituída por outra forma de atribuição do valor, pois as trocas baseiam-se em rituais e mecanismos que podem assumir um caráter espiritual. A dádiva e o dom são, assim, os atos que determinam esta mobilidade dos produtos e estabelecem a harmonia espiritual como o convívio social.

Se transpusermos isto para o sistema de aplicação dos excedentes da economia açucareira madeirenses nos séculos XV e XVI, é isso que vamos encontrar, noutra dimensão, na sua aplicação em dádivas religiosas e nos investimentos em prol da chamada economia do céu, com a construção de capelas, de túmulos, de encomendas de placas tumulares, na definição de testamentos e legados de poios. É a economia a funcionar, na preparação e consolidação do caminho do Céu.

Aqui caminhamos entre a retribuição, a dádiva e o dom. Estamos perante uma realidade alheia à dinâmica do sistema tradicional de trocas capitalista. A dádiva é um gesto ritual, religioso e acontece em todos os tempos, assumindo, nas religiões, um papel fundamental.

Em todas as religiões, há a necessidade de assegurar um lugar no além, o Céu está sempre presente. A forma de o conseguir passa por uma gestão artificiosa que se alheia da lógica do capitalismo, embora possa ser feita com produtos e recursos que entram na dinâmica de mercado. Para entender este sistema de trocas, fizemos apelo a alguns estudos da Antropologia e Sociologia, descobrindo o dom e a dádiva. Neste discurso transdisciplinar, descobrimos novas realidades, que revelam posturas sociais e atitudes que se situam no quadro quotidiano da religiosidade da época que nos ocupou por agora. Desta forma, a gestão dos excedentes de uma elevada e inesperada riqueza gerada pelo açúcar, aqui de verdade o ouro branco, conduziu a formas diferenciadas do seu uso, de acordo com padrões fora da lógica do mercado, daí a ideia de economia do Céu.

Temos enfatizado a importância das doações de pintura e ourivesaria como um fator de prestígio social dos doadores, como forma de perpetuação geracional, com a pretensa fotografia dos doadores e familiares, mas não temos valorizado este aspeto da economia do Céu, em que a dádiva ou a construção de um templo isolado ou inserido numa igreja pretende negociar, no Céu, um lugar na lógica do terreno. Daí, que, pela forma e intenção como tudo acontece, temos de considerar esta situação como fora do sistema de trocas tradicionais e apontar numa outra direção sugerida pelos estudos antropológicos e sociológicos, quando nos apontam o dom e a dádiva. E foi isso que fizemos nesta primeira incursão sobre o tema, que não para aqui e que terá continuidade num projeto que temos em mãos sobre a “MADEIRA-ROTA DO OURO BRANCO”.


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Acerca do Autor

Alberto VieiraInvestigador-Coordenador na área da História, é licenciado e doutorado em História. Foi diretor do CEHA e coordenador de vários seminários e encontros na âmbito das Ciências Sociais e Humanas. Como insular, é um defensor da Nissologia/Nesologia como “ciência para a investigação e estudo das ilhas”. É o coordenador do projeto “MEMÓRIA”.Ver todos os posts por Alberto Vieira →

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