Cartas: António e Margarida

1974 abril. António (nome fictício) está em Moçambique, na tropa. Margarida (nome criado, também) estuda e trabalha na Madeira. São namorados.

Para os dois, escrever era uma forma de salvação. Por um lado, funcionava como uma espécie de prova de vida. Quando o carteiro não trazia nada, a preocupação era  grande: “nem uma cartinha do meu amor”. A verdade, porém, é que a ansiedade mantinha acesa a chama do bem-querer.

O amor de António e Margarida – como o de milhares de jovens, neste contexto histórico, ficou ilhado. E de insularidade, eles entendem bem. São os dois ilhéus: ele, da Madeira, ela, do Porto Santo. Conhecem bem a dor de não haver transporte, de não haver ligações com o mundo: é o barco que não vai, é o aeroporto que está fechado, é o mar que está grande, é o barco que avariou…

A insularidade do seu amor tem medidas exatas: a saudade, a distância, o ciúme, o medo de que “já não gostes de mim”…

Os dois jovens escrevem-se quase todos os dias, mesmo não havendo nada para contar. Escrever é a única forma de estar junto. As cartas são o encontro possível. Para elas convergem os quotidianos, os sonhos. É por isso que emissor e recetor escrituram os dias, justificando, muitas vezes, com isso, a tristeza dos dias sem o outro…

E contam do pouco que fazem: ela, da terra, ele, da guerra. Falam dos dois: uma outra ilha que se cola geograficamente ao amor: o Porto Santo. Lugar do futuro que ambos sonham. Quando ele voltar. Quando se casarem…

E em todos os casos, o “tem cuidado”; o “tenho tantas saudades tuas”, o “se me faltas, morro”, o “ nunca deixes de gostar de mim”… que é um dos grandes medos de quem não está…

E isso aliviava a saudade, servia para assegurar que, do lado de lá do mar, se continuava à espera. Essas cartas eram lidas e relidas, numa espécie de atualização mágica do tempo. E mais. Foram guardadas, neste caso concreto, mesmo depois da morte dela, mesmo depois da vida, para ele, ter continuado…

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Acerca do Autor

Graça AlvesLicenciada em Línguas e Literaturas Modernas, é professora do ensino Secundário e tem participado em diversos projetos literários. Está destacada no Centro de Estudos de História do Atlântico, onde tem desenvolvido trabalhos ligados à literatura e às histórias de vida.Ver todos os posts por Graça Alves →

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