CF: O Funchal nos anos 60

CF 5 De Novembro 1967 Destaque

O Funchal dos anos 60 era bem diferente de Lisboa no que respeita à fiscalização que a PIDE exercia sobre as ideias e as atividades dos cidadãos.

Não havia nada que não se pudesse dizer numa tertúlia numa mesa do Café Apolo. Os empregados do Café eram muito prestáveis para o grupo de amigos que uma ou duas vezes por dia se sentavam e falavam muito de cinema, de arte, de literatura e até de polícia. . Por vezes, pela noite dentro, a tertúlia continuava, ou em casa do Franklin a ouvir Jazz, ou em casa do José Maria a ouvir  Bach.

João Teixeira

Na Madeira de então, um grupo formado por arquitetos que vieram trabalhar para o Plano Diretor da Cidade do Funchal, juntamente com alguns residentes, deram um contributo cultural importante. Os “telenovelos” produzidos pela Lurdes Castro, pelo René, pelo “Pitum”, pelo João da Conceição, etc. eram dum humor fabuloso e a exibição dos mesmos no Hotel Miramar foi um verdadeiro “happening”. O Pitum Keil do Amaral, bem como o Paulo Sá Braz viriam a ser os cartoonistas do CF

Quando estávamos de férias das Universidades que frequentávamos, caíamos rapidamente nesse Centro do Funchal.

O senhor Anatólio, Chefe da PIDE local, era pouco frequentador. E como acumulava as suas funções político/policiais com a plantação e comercialização de  flores, talvez não quisesse muitas chatices. Só me recordo dum preso político de então no Funchal – o Dr. Brito Câmara, preso na sede da PIDE à Rua da Carreira. Das janelas traseiras da casa do Dr. Aníbal Faria (hoje sede do PC, conseguia-se falar com o referido dirigente da Oposição Maderense.

Claro que não estávamos a conjeturar um Golpe de Estado, nem uma Revolução, mas comparativamente com os cafés de Lisboa onde não se podia falar com mínimo de segurança, não fosse alguém ao nosso lado que parecia ler um jornal, ser um “espia” da PIDE, no Funchal era muito diferente. O “Vává”, na Praça dos E.U.A seria comparável, embora noutra dimensão, mas mais policiado.

No início dos anos sessenta o Jornal da Madeira, que pertencia totalmente à Diocese, publicava com uma certa regularidade um suplemento literário, onde alguns dos futuros colaboradores do CF ,escreviam como o Luís Manuel Angélica (falecido há alguns meses) e José-Manuel Coelho.

Também no início dos anos sessenta existiam, julgo que na Rua dos Ferreiros, os Centros Académicos – um masculino e outro feminino (coisas da época…). Pelo menos no masculino organizavam-se Conferência e Debates. Branquinho da Fonseca, um proscrito do Regime, foi um dos conferencistas.

As relações com alguns dos “homens do poder” de então, como o Dr. Fernando Couto ou o Eng. Rui Vieira nada tinham a ver com obscurantismo e reacionarismo. Havia contradições entre os homens do regime. Mas por outro lado, da chamada “Oposição Democrática” do Funchal, poucos alinharam na aventura do CF. Exceção para o Dr. França Jardim (pai do Ricardo) e do Sr. Aníbal Trindade (pai do António Trindade). E poucos mais

Havia também, no interior da Igreja Católica, um número apreciável de sacerdotes com quem falávamos abertamente de tudo, principalmente o chamado Grupo do Pombal. Muitos deles haveriam de abandonar o celibato e partir para uma vida igual à nossa – José Manuel Paquete, Cruz e outros eram dos nossos. O padre Jardim Gonçalves, julgo que só aparecia no Funchal em períodos de férias, mas era um influente nas nossas ideias.

Claro que no Funchal nem tudo eram rosas e muito menos Democracia institucionalizada no plano da moral e dos bons costumes havia muito reacionarismo. Talvez no campo da educação, tão fundamental para a perpetuação do Regime fosse o campo mais propício às ideias básicas da filosofia e dos princípios do Estado Novo ou até do Integralismo Lusitano.

Existiam, por exemplo no Liceu Jaime Moniz personagens absolutamente sinistras que se julgavam arautos da Moral e dos Bons Costumes da Pátria e da Família.

Vicente Jorge Silva foi uma das vítimas, se não a maior, do autoritarismo reinante no Liceu. Expulso seguiu para Inglaterra e Paris. Aqui conheceu Maria Lamas e  José António Saraiva, viu filmes que não podiam entrar em Portugal. Conheceu o Mundo. Afinal repressão obscurantista exercida sobre o Vicente acabou por gerar um indivíduo mais consciente e muito preparado. Penso que dessa repressão nascem as raízes do CF que de algum modo foi, no plano do jornalismo, um dos mais sérios adversários do Regime…

Depois a história é muito conhecida – José Manuel Barroso, Artur, Rosado, Luís Manuel Angélica, a Agência de Publicidade, o CF.

O Comércio do Funchal nasce como jornal com uma vertente muito regional, defensor da Autonomia, numa Madeira castigada por Salazar, principalmente após a Revolução da Madeira. Longe dos centros de decisão e fustigada pelo ódio de ditador, havia aqui um terreno  político a desbravar. Mas o território era pequeno e a população com um grau de analfabetismo enorme e o CF  teve de ganhar uma projeção Nacional. Passou também a tratar de Política Nacional e Internacional. Passou a ser lido no Continente e nas comunidades Portuguesas no Estrangeiro – Paris  e Suíça, etc.

Num contexto de Revolta estudantil, primeiro em Paris, depois em Coimbra e Lisboa e principalmente com a Guerra do Vietnam e o seu contraponto nas Colónias Portuguesas. A Oposição à guerra e à ditadura foi aumentando principalmente nas camadas jovens e intelectuais. Escrevia-se sobre o Vietname porque não se podia falar da Guiné ou de Angola.

A censura  (existia!)muito branda numa fase inicial e até capaz de dialogar, sucumbe em diversos momentos aos interesses ideológicos da ditadura e o CF sofreu.

De qualquer maneira continuou a ser um semanário de referencia, entre o Notícias da Amadora (muito PC) e o Jornal do Fundão (oposição tradicional e republicana). O enquadramento do CF no contexto das ideias antirregime.

A seguir – Marcelo Caetano; A Carta ao Governador , verdadeiro manifesto abrangente contra a política assumida na Região pelo Governo de Marcelo Caetano, assinada também por gente do CF; Eleições nacionais com  o José Manuel Barroso a integrar a lista de candidatos a deputados à Assembleia Nacional..

Depois o 16 de Março e o 25 de Abril – liberdade e Partidos Políticos.

Na Madeira partidos de Oposição à Ditadura tinham pouca ou até nenhuma expressão. Até o PC, implantado ao nível nacional, não apresentava na Madeira nenhuma estrutura digna de nota. Houve um vazio imediatamente ocupado pelo que restou do antigo regime, ou pela extrema esquerda. O CF foi tomado por estes últimos . O Vicente (anti-estalinista e principalmente contrário ao realismo socialista no campo das artes e da cultura) conseguiu durante o período da Ditadura, uma gestão política do CF relativamente fácil, pautando-se por uma aceitação extremamente democrática das ideias dos diferentes colaboradores do Jornal Cor-de-rosa que estavam posicionados entre um catolicismo progressista, uma oposição de esquerda e até de extrema esquerda.  Desta vez, naturalmente, não resistiu. Foi para Lisboa e acabou por ter um papel fantástico no  Expresso e no Público, e é , sem dúvida, um jornalista de referencia na imprensa portuguesa dos últimos anos. Entretanto, já desde o início dos anos 70, José Manuel Barroso tinha saído da ilha, fora cumprir serviço militar na Guiné como capitão miliciano.

As ideias sobre a Autonomia Regional e a necessidade de erradicar a “Colonia”, expressas no CF e na “Carta ao Governador”, foram assimiladas pelo novo Poder do PPD, que englobou algumas personalidades da Oposição ao Regime anterior. O Regime Autonómico  construído, quanto a mim (vou ser politicamente incorreto), ficou muito longe do que eu imaginava – em vez da gestão política de proximidade, que permitisse resolver os problemas da Economia e da Cultura , criou-se uma máquina pesadíssima que criou muito emprego político e que nos deixa, hoje ,afogados nos custos inerentes e deixando , a Autonomia mais frágil, sem capacidade de imprimir as políticas de desenvolvimento necessárias.

João Teixeira

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