CF: Uma memória pessoal

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Não integrei o grupo que arrancou com o “Comércio do Funchal” nos finais de 1967. Por essa altura estava em Coimbra nos primeiros anos de medicina. A minha aproximação ao CF aconteceu dois anos mais tarde, no verão de 1969, após a crise académica com greve aos exames, que colocou a nu o caracter autoritário e repressivo da nova política de Marcelo Caetano, demonstrando a incapacidade do regime em se reformar por dentro. Apesar de conhecer o Vicente Jorge Silva desde os 10 anos – fôramos colegas de turma nos primeiros tempos do liceu – o elo de aproximação foi o meu pai, António França Jardim, médico oftalmologista, um espírito democrático e livre, apoiante desde a primeira hora dos “rapazes do Comércio”, particularmente do Vicente e do Luís Manuel Angélica, a quem dedicava uma enorme amizade, diria paternal. Com o José Manuel Barroso mobilizado para uma segunda comissão de serviço como capitão miliciano na Guiné, a “máquina” do CF resumia-se praticamente ao Vicente, ao Angélica e a 3 jovens funcionários que tratavam do expediente administrativo. O Vicente era o homem dos sete ofícios: redigia metade do jornal, recolhia os artigos que lhe eram enviados, paginava, discutia os cortes com os censores e fazia as provas de revisão, com “diretas” sem tempo para dormir às quintas-feiras, véspera da saída do jornal.

Ricardo Jardim

Quanto ao Angélica, pontificava na administração, trocando com frustração o seu real talento literário pela inóspita tarefa de conferir números, para que as receitas cobrissem as despesas. Havia ainda um ou outro colaborador local, como o Liberato Fernandes, com um atribulado percurso de dirigente nacional da Juventude Operária Católica a militante da UDP; o Tolentino Nóbrega, que viria a ser um grande jornalista local denunciando os atropelos antidemocráticos da Madeira Jardinista; ou o discreto mas eficiente António Sampaio. E depois o grupo dos estudantes universitários, onde me integrava como o José Maria Amador, o José Manuel Silva Coelho, o João José Teixeira, o Duarte Sales Caldeira, o José Agostinho Baptista, o Leopoldo Gonçalves, o Duarte Barros ou os irmãos Rui e Duarte Teives Henriques. Escrevíamos e ajudávamos o Vicente nos nossos períodos de férias. Havia ainda um grupo de jovens católicos ligados ao Centro de Cultura Operária, que participavam às sextas-feiras nas tarefas de encartamento e expedição do jornal.
Entre 1969 e 1973 o CF atingiu tiragens de 15.000 exemplares, dos quais pouco mais de 2.000 ficavam na ilha. O resto era “exportado”. Tínhamos cerca de 7.000 assinantes em todo o país, incluindo colónias, que recebiam o jornal pelo correio. Chegamos a ter largas dezenas de postos de vendas espalhados pelo país, alcançados pelo método do “boca a boca”, já que não havia qualquer empresa distribuidora. Os vendedores ouviam falar do jornal e escreviam à administração, solicitando uns tantos exemplares à consignação. Lembro-me de um ardina com banca na passagem de nível do Rego e à porta da Velha Cantina Universitária de Lisboa, que à sua conta esgotava 400 exemplares por semana, sem sobras. E vendíamos mais jornais em Paris, num quiosque da “Etoile” e na livraria Maspero que no Funchal inteiro.

De onde veio este sucesso? Seguramente da qualidade do jornal, mas também dos condicionamentos políticos da época. Num regime autoritário, com grande controlo da imprensa, era praticamente impossível abrir novos jornais. Por outro lado, a máquina da censura muito focalizada nos grandes meios de comunicação de Lisboa e Porto, não estava preparada para o aparecimento numa zona periférica de um órgão de informação crítico ao regime. E nós jogávamos um constante jogo do gato e do rato: escrever de forma suficientemente encriptada para o censor não perceber, mas relativamente clara para o leitor compreender. Por exemplo, “Lenine” era uma palavra proibida, mas “Ulianov” podíamos escrever à vontade, até ao censor perceber quem era. O outro semanário “periférico” com projeção nacional era o “Jornal do Fundão”, embora contrariamente ao CF, se assumisse sempre como um órgão regional, centralizado no noticiário local. Existiam apenas meia dúzia de órgãos de comunicação desalinhados com o regime: as revistas mensais “Seara Nova”, “Vértice”, “O Tempo e o Modo”, o semanário “Notícias da Amadora”, os diários “República” e “Diário de Lisboa” e pouco mais.
Com o decorrer dos tempos fomos “adquirindo” um grupo regular de colaboradores que acabaram por fazer carreira jornalística profissional. Foram os casos do António Mega Ferreira, do José António Saraiva, João Carreira Bom, Eduardo Guerra Carneiro, Alexandre Oliveira, José Freire Antunes, Fernando Dacosta, Fernando Lima, José Feronha, Manuel Queiroz, Carlos Marinheiro ou do LH Afonso Manta (Nuno Rebocho), Dúlia Rebocho e Maria José Mauperain. Havia ainda correspondentes no estrangeiro alcançados pelo mesmo método, como o grupo de Paris com o J. A. Silva Marques, Júlio Henriques, Soeiro Sarmento e Jacinto Rodrigues. Em Londres tínhamos o Alberto Melo, em Itália o Gil Martins, a Fátima Dart na Alemanha, J.M. Nobre Correia na Bélgica, Rentes de Carvalho na Holanda e a Teresa Sá Nogueira no Brasil, que nos enviava excelentes entrevistas com o Jorge Amado, Vinícius, Glauber Rocha, Rui Guerra, Gilberto Gil, Chico Buarque ou com o futebolista Tostão. Folheando as páginas do CF, encontramos críticas de música do Mário Vieira de Carvalho, artes plásticas com o Eurico Gonçalves, literatura com a Hélia Correia, teatro com o Tito Lívio e o Carlos Rodrigues, cinema com o Joaquim A. Leal e sobre as grandes questões judiciais da época com o José António Barreiros. E havia as ilustrações do Pitum Keil do Amaral, do Maurício e do Paulo Sá Brás, cuja caricatura do General Spínola em pose autoritária de monóculo e pingalim, nos valeu uma suspensão por “agressão ideológica”, já depois do 25 de Abril.
Em 1972 com a vinda do Angélica para Lisboa, constituímos um espécie de redação na casa que compartilhei com ele. Fazíamos uma reunião semanal com os colaboradores, distribuíam-se tarefas e recolhíamos os textos a enviar para a Madeira, embora a planificação saísse frequentemente furada, quer por atrasos dos correios nesses tempos sem internet nem fax e ligações telefónicas muito condicionadas, quer pelos constantes cortes da censura. Aí por meados de 1973, a pressão da censura aumentou. Passamos a ter “provas de página”, com o todo o material impresso remetido à direção central da Censura em Lisboa a qual, após os cortes, devolvia ao Funchal por via burocrática. Nessa altura conseguimos uma entrevista com o censor-mor, que acedeu a telefonar-nos à medida que “libertasse” os textos censurados. Íamos busca-los ao Palácio Foz, nos Restauradores, e seguíamos para o Aeroporto, à procura de alguém que os levasse para o Funchal. Certa vez, o transportador foi o então dirigente local da Acção Nacional Popular, Dr. Graciano Ferreira Alves e noutra ocasião o Presidente da Junta Geral, Eng. Rui Vieira. Não lhes revelei o conteúdo da encomenda, mas creio que eles desconfiaram. Mesmo assim, os atrasos subsistiam. Até que numa determinada semana, com quase todo o material retido, o Vicente publicou uma edição de 4 páginas em vez das habituais 20, cheias de espaços em branco, preenchidos por grandes círculos negros e com a única explicação possível (cito de memória): “Por razões alheias à nossa vontade, esta edição tem um formato reduzido”. Os leitores perceberam, o Poder sentiu-se incomodado e a censura voltou a sediar-se no Funchal.
Com o 25 de Abril, acabaram-se os condicionalismos à abertura de novos jornais. Bastava ir ao Palácio Foz, apresentar um requerimento acompanhado por um certificado de habilitações literárias e estava feito. Os colaboradores dispersaram-se, o Vicente veio trabalhar para o “Expresso”, recentemente fundado e o que restava da redação do Funchal entrou num processo de radicalização ideológica, muito ao sabor desses tempos, tendo o jornal deixado de fazer sentido como órgão de imprensa de expressão nacional. Afastei-me no início de 1975 e só 15 anos depois voltei à escrita, novamente pela mão do Vicente, desta vez no “Público”.
O CF pode ser visto como um jornal regional? Também. Particularmente nos primeiros anos. Aí era evidente a defesa de uma certa ideia de autonomia insular que colhia simpatia até por alguns sectores do regime que a não podiam expressar abertamente no seu terreno. E a prova é que em 1968, ainda no tempo do Salazar, quando o jornal foi suspenso “sine die” na sequência de um artigo do José Manuel Barroso sobre o Maio de 68, os deputados regionais à Assembleia Nacional pugnaram pelo levantamento dessa suspensão. E estou em crer que alguns dos artigos publicados no “Aqui e Agora”, o nosso suplemento regional, sobre os períodos económicos da história da Madeira, como os ciclos de monoculturas da cana sacarina, do vinho e da banana e mais modernamente de um modelo de desenvolvimento exclusivamente centrado no turismo, sem contrapartidas noutros sectores da economia regional, continuam atuais.
O CF como um projeto político? Sim. Mas foi sobretudo a aventura de um grupo de amigos que partilhavam o sonho da liberdade e se divertiram a fazer um jornal e que cinquenta anos depois, com trajetos de vida muito diferentes, conservam intacta uma profunda e fraternal amizade.

Ricardo França Jardim

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