Comércio do Funchal: escola de jornalismo, escola de vida

CF Destaque

Tinha acabado de fazer 21 anos quando comecei a aventura do Comércio do Funchal, já lá vai mais de meio século. Olhando para trás, foi essa a minha escola de jornalismo e a minha escola de vida, onde fui aprendendo a praticar a minha profissão e a ensaiar as opções políticas que marcariam o meu percurso até hoje.

Vicente Jorge Silva

Dera os meus primeiros passos na adolescência em páginas juvenis e culturais da imprensa madeirense, como Artes e Letras no Diário da Madeira, Foco no Jornal da Madeira, ou Pedra no Eco do Funchal (mais tarde retomada esporadicamente no Comércio do Funchal). E descobrira instintivamente, ainda aluno do liceu, a minha oposição à ditadura. Mas foi naquele que ficaria também conhecido como o «jornal cor-de-rosa» que encontrei o meu caminho profissional e político, desde a verde rebeldia juvenil até à maturidade.

Regras éticas, de comportamento e abertura de espírito, recusa do conformismo ou do sectarismo ideológico, respeito pelos factos e pela integridade de carácter, sem prejuízo da minha identificação com os valores de uma esquerda liberal, libertária e tolerante, tudo isso pude colher da aventura do Comércio do Funchal (ou do CF, abreviatura que preferíamos à conotação «comercial» de um título herdado).

O trajecto do jornal e o meu próprio trajecto desde o início dessa aventura até à minha saída no Verão de 1974 confundem-se estreitamente. Fui amadurecendo do ponto de vista profissional e político ao longo desses sete anos, dos tempos iniciais em que o jornal tinha uma dimensão sobretudo regional até à época em que conquistou uma difusão inesperada à escala nacional, nomeadamente entre a juventude universitária e os oficiais milicianos enviados para a guerra colonial, sem esquecer também alguns núcleos de emigrantes e exilados políticos no estrangeiro.

Começámos por dar destaque aos temas insulares e fomos enveredando progressivamente pelo tratamento da actualidade nacional e internacional – designadamente no plano cultural –, dentro dos limites da censura prévia e do condicionamento político das liberdades de expressão e imprensa. Mas o facto de ser editado numa ilha facilitou a resistência do CF à censura do Estado Novo, apesar das suspensões com que o regime procurou sufocá-lo. Nessa aldeia pacata que era a Madeira de há meio século, o relacionamento entre as pessoas escapava, por vezes, às crispações políticas que se manifestaram depois da queda da ditadura salazarista, e isso também permitiu uma maior capacidade de «negociação» com os censores.

Curiosamente, foi pouco depois do 25 de Abril, quando a nossa aspiração à liberdade e à democracia se pôde enfim concretizar, que acabei por sair do jornal devido a divergências com a maioria do grupo político que nele predominava. Para mim, o CF só fazia sentido se mantivesse a sua independência política e editorial, enquanto para esse grupo era inevitável que se tornasse o órgão de expressão da tendência esquerdista com maior força local.

De qualquer modo, o CF tinha já cumprido o seu papel histórico como jornal de resistência e de expressão de uma esquerda plural (desde socialistas a diversas correntes da esquerda radical, exceptuando o PCP). Acabada a censura, esse papel histórico teria de alguma forma terminado, com o aparecimento de outros órgãos de informação com maior solidez económica a nível nacional. Mas foi aí, no querido CF, que comecei e encontrei o meu caminho há mais de 50 anos.

Vicente Jorge Silva

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