Comércio do Funchal: Os três factores de um sucesso

CF 1 De Outubro 1967 Destaque

Lembro-me de estar no café Apolo, em amena cavaqueira da ‘nossa’ tertúlia politico-literária de pós adolescentes – o Vicente Jorge Silva, o Luis Miguel Angélica, o Prioste, o Vitor Rosado e eu, todos na casa dos 20/21 anos – e da entrada do Artur Andrade a disparar para o grupo (mais para os outros do que para mim, recém chegado à Madeira): «É pá, há um gajo meu amigo que edita o «Comercio do Funchal» uma vez por ano, para manter o título, e aceitaria alugar o jornal. Vocês gostam de escrever e teriam onde». Foi mais ou menos assim a conversa. Melhor, o começo de conversa. Dela e dos seus desenvolvimentos práticos nasceu a aventura do que seria, durante alguns anos, em tempos da ditadura do Estado Novo, a mais fantástica experiência de um jornal ultra-periférico que se tornou em moda política e em influenciador da juventude universitária portuguesa e da consciência política da opinião pública madeirense.

José Manuel Barroso

Já o disse, estávamos todos na casa dos vinte anos. Eram todos madeirenses e residentes na Madeira – exceto eu, que estava na ilha por exigência do serviço militar obrigatório – e todos democratas, embora apenas eu claramente de esquerda e ideologicamente definido. Eu tinha saído do Partido Comunista recentemente e pelo meu pé, desencantado, pelo que me restava um socialismo de esquerda meio anarca. E lá fomos no navio que se aventuraria a desafiar tudo e todos: as regras do jornalismo de então, a ‘situação’ na Madeira e no País, o centralismo de Lisboa e os partidos políticos de esquerda. A nossa rota era um misto de desafio adolescente e desafiante, a tudo e a todos. E um grande e divertido ‘gozo’.

A equipa do Comércio começou por impor-se pela irreverência certeira e inovadora jornalisticamente com que analisava a vida política, económica, social e cultural local – e até pela forma como tratava o tema desporto nas colunas do jornal. Se, numa primeira fase, eu comandava as hostes nas coisas políticas, económicas e desportivas – o Vicente e o Angélica, com o apoio do poeta António Aragão, mais então nas áreas culturais e sociais -, progressivamente a equipa, sobretudo o Vicente, foram-se aventurando na política. E, assim, o nosso jornal-navio foi navegando, mais e mais, para os mares mais revoltos da política nacional e mesmo estrangeira. De aqui, do nosso ‘porto seguro’ que era o Funchal e a Madeira, olhando o País e o Mundo de tão longe das tertúlias e dos ‘lobbies’, informando, analisando e opinando sobre tudo. Quer-se algo tão mais irreverentemente adolescente? Mas foi assim. Até o jornal se tornar num sucesso local e nacional (tínhamos, a certo passo, mais do dobro de leitores no Continente e Açores do que na Madeira). E começar a ser destruído pela censura do regime da ditadura do Estado Novo. Como fora possível isso? Porque foi possível?

Em primeiro lugar, porque nos situávamos, geograficamente, numa das ultra-periferias de Portugal, mais longe do centro do poder político e da perseguição política desse tempo. Em segundo lugar, porque não estávamos ligados a nenhum partido ou movimento político, da situação ou das oposições. Em terceiro e muito importante lugar, porque radicámos a nossa linha editorial na velha História da Madeira, na sua nem sempre confessada publicamente, mas sempre ansiada, vontade de autonomia e de auto-governo. Estes três fatores foram, a meu ver, a chave do êxito local e nacional do Comércio do Funchal, o mais relevante e influente e moderno jornal madeirense (semanário embora) na década entre 1965 e 1975).

Regressando aos três fatores que sublinhei. O primeiro, o estar longe do centro de poder e o facto de a censura estar descentralizada – era feita aqui e não em Lisboa ou no Porto – criava uma barreira de atenção entre a capital e a ilha. O segundo, a independência e autonomia em relação às forças partidárias que se moviam no Continente, não nos envolvia nas teias do conhecimento e da perseguição às referidas forças – outra barreira, que nos auxiliava também internamente na região. O terceiro, a ligação espiritual e histórica aos anseios de autonomia dos madeirenses, dava-nos força junto do público local, criava-nos alianças discretas com os elementos locais do Regime que nos apoiavam discretamente, apesar das diferenças políticas, e nos davam informação importante e, não raras vezes, nos protegiam e protegeram, quando a repressão censória se começou a exercer sobre o jornal. Na verdade, e isto foi – e é ainda -um valor de referência histórica sobre o percurso do jornal. O Comércio representou, para a Madeira, a voz dos anseios autonomistas da Região, das reivindicações históricas dos madeirenses, da identidade da Madeira, das reivindicações, das reclamações e do protesto (possível) no final dos anos sessenta. Quando ainda havia censura e uma ditadura. E antes dessa bandeira ser arvorada, à maneira de cada uma, pelas diversas forças políticas que fizeram da região uma Região Autónoma, enquadrada e definida pelo ordenamento juridico-constitucional do País.

Poderia o Comércio do Funchal ter subsistido depois do 25 de Abril? Creio que não. Primeiro, porque o seu referencial de resistência unitária ao regime anti-democrático e centralista de Lisboa foi apagado pela democratização do país e agudizado pelo transportar para o interior do jornal das lutas da esquerda e entre a esquerda e a extrema-esquerda. O consenso editorial e o consenso político, que eram um dos cimentos agregadores da aventura do Comercio do Funchal, voaram em estilhaços. E também porque, mesmo que um consenso se mantivesse, do ponto de vista editorial, para tornar o CF numa espécie de Expresso madeirense, depararia com dois quase intransponíveis ‘obstáculos’: a liberdade de imprensa, que retiraria ao jornal grande parte do seu público e o tornariam ‘desnecessário’, e a ausência de organização e de sentido empresarial (e de capacidade de financiamento) das estruturas do jornal.

O Comércio do Funchal – o CF, o jornal cor-de-rosa – foi um produto daqueles tempos, uma circunstância da História da Madeira e da luta contra a ditadura. Não poderia ter sido outra coisa. Mas foi um marco do jornalismo local e nacional e da força e da identidade da Madeira e dos madeirenses – em qualquer lugar ideológico e partidário em que eles se situem hoje.

A aventura do CF faz parte, como alínea, da aventura histórica do devir do arquipélago e das suas gentes. É assim que eu a vejo, 50 anos depois. Lembrando-a com o coração do adolescente que eu era nesses idos dos anos 60 e analisando-a com cérebro do madeirense adotivo já no último ciclo da vida.

JOSÉ MANUEL BARROSO

 

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