De Manuel…

A história que vou contar tem um nome: Manuel Alexandre da Costa e tem o coração em forma de ilha, porque essa é a forma do coração de muitos homens e de muitas mulheres que, um dia, tiveram de partir.

Manuel da Costa tinha 14 anos, quando veio à Madeira pela primeira vez. Um homem. Tinha saído dois anos antes, sozinho, com uma mala quase vazia, num dos vapores do Cabo cujo apito fazia estremecer os madeirenses.

É verdade que fugia a uma guerra colonial que matava os rapazes, que os devolvia estropiados, que alagava os olhos das mães e das namoradas, que trazia o coração da ilha suspenso, no medo de que o «até ao meu regresso» não fosse verdade.

Destino: África do Sul, maio de 1964. Sonho: estudar. Tinha interrompido a 4ª classe, na ânsia de se ir embora, apesar da dor de deixar a mãe, o colo da mãe, de deixar o pai, a força do pai.

Manuel sabia que tinha de partir. Trabalhou muito para mandar o dinheiro da passagem que o pai lhe pagara. Muito e duro. Estudou. Enquanto pôde, estudou numa escola onde era o único português.

Tinha 14 anos e veio ver a mãe. Um registo fotográfico desses dias: a mãe serve-lhe um copo de vinho. O seu menino já era um homem.

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Acerca do Autor

Graça AlvesLicenciada em Línguas e Literaturas Modernas, é professora do ensino Secundário e tem participado em diversos projetos literários. Está destacada no Centro de Estudos de História do Atlântico, onde tem desenvolvido trabalhos ligados à literatura e às histórias de vida.Ver todos os posts por Graça Alves →

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