Do Ilhéu

Naquele tempo, o ilhéu era um sítio bonito. Havia poucas casas, todos os quintais eram floridos e as pessoas conheciam-se umas às outras. A casa de Maria José tinha dois quartos, uma cozinha e casa de banho. Tinha água canalizada e um terreiro. Estava bem arranjada, limpinha, mas foi-se tornando pequena à medida que os irmãos foram nascendo: nove.

A família nunca passou fome. De manhã, comiam pão e se alguma das crianças quisesse repetir, a mãe dava-lhe o seu quinhão. Não havia fartura, nem variedade. O almoço era milho e peixe. Todos os dias. À noite, havia sopa. Carne não havia, mas peixe sim. A mãe até partilhava algum com os vizinhos e familiares.

Quando o pai saía para o mar, o farnel era diferente. Maria José e os irmãos observavam a mãe a prepará-lo cuidadosamente. Era melhorado.

Maria José sabia que havia de comer as sobras do que o pai tinha levado na canoa. E esperava que ele voltasse para ir ter com ela ao calhau.

O pai era divertido. Andava sempre com a viola às costas e enchia-a de mimos. A mãe, mais reservada e marcada pela perda do filho, tinha momentos em que passava os dias sem comer nada. Não conseguia. Tudo lhe ficava na garganta. Era certamente a angústia de quem sofre a dor maior que é a perda de um filho, coisa que Maria José não percebia, nesse tempo de menina.

Maria José fez exame de 4ª classe. Depois quis fazer um curso de costura. O pai autorizou. Em seguida, quis aprender a fazer bolsas, a bordar e a fazer crochet. O pai deu permissão. Todas estas atividades eram pagas. A mãe dizia que não tinham dinheiro mas o pai respondia:

– Deixá-la aprender. O saber não ocupa lugar.

Aos 16 anos e, depois de ter terminado um namoro sério, mas demasiado complicado, uma vizinha mostra-lhe uma fotografia de um filho que tinha emigrado. Maria José olhou e disse: «vou casar com este». E assim ficou dito.

– Estava cansada de comer milho, milho e mais milho! Agora tudo iria mudar.

Todos os que saíam regressavam bem e, por isso, não hesitou. Em três meses, tudo foi tratado. Casou por poder e meteu-se no Santa Maria que a levou para a Venezuela.

 

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Acerca do Autor

Graça Alves

Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, é professora do ensino Secundário e tem participado em diversos projetos literários. Está destacada no Centro de Estudos de História do Atlântico, onde tem desenvolvido trabalhos ligados à literatura e às histórias de vida.

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