Escritas femininas

Em maio, o Projeto Memórias… foi a Viana do Castelo participar num encontro sobre Escritas Femininas. Levamos cartas  e Histórias. Trouxemos ideias e futuros:

A mulher esteve séculos silenciada, com funções de reprodução e na sombra da domesticidade, não havendo narrativas de vida e da sua história. Elas são a água estagnada enquanto o homem age, atua e brilha em público. Era assim desde a antiguidade; ficavam afastadas do teatro, onde os heróis eram masculinos; elas raramente eram atrizes, quase sempre tinham papéis submissos, aclamando os vencedores, chorando as derrotas, eternas carpideiras de todas as tragédias.
Que história se conhece da mulher? O pouco que se produziu foi construído por memórias masculinas, porque eles gerem os arquivos delas. Na antiguidade, elas não constam nos recenseamentos, exceto quando eram herdeiras.
Desde sempre, há uma escassez de informações sobre o feminino e uma superabundância de imagens e discursos masculinos. Em contrapartida, ela é representada na arte desde a pré-história. Há uma abastança de imagens femininas, certamente pela sua beleza e enigmas não revelados. A virgem Maria reina nos altares onde oficiam sacerdotes. A República portuguesa é representada no feminino, a mulher imaginada. Mas Ela é a chave do lar, da estrutura matrimonial. Sobre a mulher recai toda a responsabilidade doméstica.
Pretendemos escutar a voz da mulher, ver os seus gestos e nas letras. É aqui que entra a escrita privada, as escritas femininas, as correspondências delas que teimam em ficar escondidas ou a ser ignoradas. Estas fontes são uma mina inesgotável de informação familiar e pessoal. Letras de religiosas permitem ouvir santas, abadessas de renome; senhoras caridosas dedicadas aos pobres, mas acima de tudo acedemos ao pensamento feminino, cartas de jovens anónimas permitem novas abordagens para a história da cultura escrita feminina.
Há que resgatar epistolários femininos, estudá-los e divulgá-los. Saber o que pensam, como agem, como se relacionam com o sexo oposto, no século XX, que importância era dada ao ritual da escrita, que ritmos de comunicação imprimiam, os conflitos, o ciúme, os afetos, em síntese, como se alteram os papéis da mulher, especialmente no contexto das escritas de gente sem importância, jovens que emergiam para a liberdade. Cartas de amor, postais enviados em tempo de ócio, registos de férias, diários da intimidade, copiadores de correspondência, receitas de cozinheiras, livros de contas, memórias pessoais e apontamentos formam o arquivo do Eu feminino; mas nem sempre são preservados estes fundos documentais, sendo-lhes dado um reduzido tempo de vida. Quantos de nós não fazemos “limpeza” aos “papéis velhos” ou com datas caducadas? De tempos-a-tempos, damos voltas a estes espólios, selecionamos o que mais nos interessa no momento e reconstruímos o arquivo da nossa vida, destruindo peças desadequadas ao nosso curriculum.
A gente anónima também produziu fontes primárias, que permitem aos pesquisadores novas perspetivas sobre a história, mas raramente estas fontes estão ao dispor dos investigadores e muito menos as escritas femininas, de que pouco se conhece.
A temática em análise deu aso a um encontro de um grupo de investigadores que se têm debruçado sobre correspondências e outros escritos de mulheres. A partir desta reunião, pretendemos criar espaço para estudo das escritas privadas e populares, dando voz ao sexo feminino, por forma a sensibilizar as futuras gerações de investigadores para a conservação deste tipo de espólios, mas também para a divulgação de novos estudos onde a mulher tem lugar próprio, fazendo ouvir pensamentos, mentalidades, atitudes, problemas, modos de vida e, acima de tudo, divulgar novas perspetivas sobre a cultura escrita. Esta introdução vem a propósito de um Encontro das Escritas Femininas, realizado na Escola Superior de Educação de Viana do Castelo, no passado mês de maio.


A reunião científica iniciou-se com a comunicação de Doutor Henrique Rodrigues, especialista nestas temáticas, que abordou o tema “madrinhas de guerra”. Trata-se de raparigas que se corresponderam com um soldado, enquanto esteve no serviço militar, na Guiné, durante a Guerra Colonial. Eram jovens com mentalidades diferentes, que pretendiam quebrar os tempos de silêncio dos soldados e acabar com a solidão dos militares. Destas correspondências nasceram afetos e namoros que fruticaram, constituindo famílias assentes em valores cristãos. Foi o caso de uma menina de 16 anos, que ficou sensibilizada pela prosa romântica do soldado, apaixonando-se e casando depois da guerra. No mesmo painel, a Professora Cláudia Faria, natural do Funchal – Madeira, dissertou sobre escritas familiares com dinâmicas de rotina; tratam da economia doméstica, das despesas e remessas de dinheiro, da carestia da vida, da terra e das suas gentes; Aqui circulam notícias dos ilhéus, que se apegam ao seu “poio” e dele dão notícias. Também circulam recomendações e conselhos; e as inquietações. Destas cartas emergem quadros da ruralidade e a importância dos papéis da mulher, enquanto o marido está ausente.
Numa perspetiva diferente, a Doutora Manuela Correia abordou Sophia de Mello Breyner, uma feminista e escritora da revolução, que lutou pelos direitos da Mulher. Sophia destaca-se por não fazer da biografia a sua escrita. Como mãe tecia contos para ler aos filhos. Não deixou de fazer poesia de intervenção: “Vemos, ouvimos e lemos / Não podemos ignorar (…)”, a Cantata da Paz.
Indo de encontro aos espaços familiares, a Professora Doutora Olinda Santana, da Universidade de Trás-os-Montes, partindo da definição da escrita doméstica, abre um arquivo familiar produzido por quatro gerações de mulheres: bisavó, avó, mãe e filha. A tipologia textual carateriza-se por três esferas: esfera profissional – escritas produzidas em todas as atividades profissionais; esfera pessoal – diários, poesia e correspondência; esfera doméstica – agendas domésticas, receitas, ementas, listas de compras, etc. e concluiu que a prática da escrita doméstica, no seio das famílias, é quase sempre direcionada às mulheres. Num contexto colegial, o Doutor Ernesto Português traçou quadros da história de uma mulher de Viana do Castelo, com uma cultura acima da média, acolhida no Colégio de Regeneração de Braga, conhecida como “a Vianinha”.
A escrita desta personagem revela persistência em atingir os seus objetivos, dedicando-se e empenhando-se pelo serviço da recuperação de outras colegiais desamparadas, pobres e abandonadas. Passando do exemplo da “Vianinha”, o palestrante apresenta como pilares fundamentais da instituição duas vertentes: a instrução (ler e escrever) e formação (aprendizagem profissões).
A Professora Graça Alves, escritora natural do Funchal – Madeira, fez uma análise ao discurso de saudade. Usando cartas de uma mulher ao seu marido, explora a circulação da saudade, como palavra–chave: “Quem parte leva saudade, quem fica saudades tem”. A terminar a reflexão, deixa um excerto do poema de Fernando Pessoa – “Eu amo tudo o que foi”:
Eu amo tudo o que foi / Tudo o que já não é, / A dor que já me não dói, / A antiga e errónea fé, / O ontem que dor deixou, / O que deixou alegria/ Só porque foi, e voou / E hoje é já outro dia.”
As sessões continuaram com a apresentação do livro: Cartas no Intervalo da Guerra, da autoria de Cláudia Faria e Graça Alves, investigadoras do Centro de Estudos de História do Atlântico, Funchal, que trabalharam um arquivo familiar, produzido num contexto de guerra, com mais de duzentos documentos (aerogramas e cartas) trocadas entre um soldado e a madrinha de guerra/ namorada e mais tarde esposa. As temáticas deste espólio são multifacetadas e muito ricas, destacando-se questões de natureza doméstica, o dia a dia, a fazenda, a sociabilidade de cá e de lá, as tradições e festas, as pessoas, as celebrações e desabafos; do Ultramar e acima de tudo o futuro de ambos, o planeamento familiar, o número de filhos, os papéis da mulher e do homem (“Já não sou eu, somos nós”) e a moda, nos anos setenta a “manicure”, pintar as unhas e cuidar da pele e dos pêlos.
O encontro terminou com o Professor Doutor Henrique Rodrigues e Ana Silva, em representação de um grupo de trabalho de estudantes do 2.º ano do curso de Educação Básica, a apresentarem um projeto sobre Escritas Femininas. Como balanço, há a registar a presença feminina, cuja plateia rondou as sete dezenas de jovens estudantes e profes- sores que muito aplaudiram a iniciativa. A realçar temos a boa organização e o cumprimento do programa em detalhe, assim como a proposta de formação de um grupo de trabalho para constituir uma associação que venha a tratar questões das Escritas Femininas, com sede na Madeira.

Por
Prof. Henrique Fernandes
Ana Lúcia Sequeiros
Diário do Minho, 26 de Julho de 2017
Fotos Diário do Minho

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Acerca do Autor

Graça AlvesLicenciada em Línguas e Literaturas Modernas, é professora do ensino Secundário e tem participado em diversos projetos literários. Está destacada no Centro de Estudos de História do Atlântico, onde tem desenvolvido trabalhos ligados à literatura e às histórias de vida.Ver todos os posts por Graça Alves →

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