Na minha casa havia…

Na minha casa havia dois portões de ferro: um era pequeno e era o que utilizávamos para entrar; o outro era grande, dava diretamente para o quintal e quase não era aberto.
Na minha casa subiam-se três degraus para se chegar a uma pequena varanda, ponto de passagem para uma sala onde fazíamos as refeições.
Na parte da frente da minha casa havia um jardim. Num canteiro, do lado direito, estava plantada uma macieira que dava maçãs que não deixávamos crescer… eram azedas, daquelas de trincar e cuspir.
Na minha casa havia um abacateiro debruçado sobre a janela do meu quarto. Quando estava carregado, assustava-me as noites desprendendo frutos maduros que percorriam a folhagem em grande velocidade e se esborrachavam no chão.
Na minha casa havia uma escadaria nas traseiras. Acedia-se-lhe pela porta da cozinha. Descendo as escadas quase se tocava numa imponente palmeira, daquelas de dar dendém, com antiguidade no tronco e anéis de cicatrizes de muitas folhas perdidas. Os frutos nasciam negros, numa sanzala de espinhos onde, por abundância, ficavam todos juntinhos e eram tão apertados, que não cresciam redondos, mas alongados.  Os frutos amadurecidos pintavam-se de vários cores: amarelo, amarelo-torrado, laranja matizado de vermelho ou ferrugem com laivos negros. Na minha casa, portanto, havia dendém para cozer, descascar, espremer, filtrar para fazer polpa para muamba de Domingo.
Na minha casa havia duas frondosas mangueiras, lado a lado, majestosas, com baloiços de corda feitos, para balançar brincadeira.
E havia jinguba, que se arrancava da terra e era depois lavada e comida crua, cozida, torrada ou moída. Eu gostava dela cozida com casca. Trincava-a e ela derramava-me na boca o sumo da cozedura que mantinha dentro da “cápsula” ao mesmo tempo que saboreava os grãos macios e de sabor indizível para quem nunca provou.
Na minha casa havia pitangueira da casa do vizinho que deixava cair preguiçosamente os ramos farfalhudos e verdes sobre o muro do meu quintal, oferecendo pitangas vermelho-sangue, cheirosas, carnudas e saborosas. E havia amoras das brancas e das pretas para esmagar na boca.
Na minha casa também havia tomate e cenoura e cebola e batata (da doce e da outra), feijão verde, ervilha… e ainda havia gindungo de temperar perna de cabrito de assar no fogareiro a carvão, untado com molho a escorregar de um raminho de salsa.
Na minha casa havia… havia tudo, porque havia a minha mãe.

Salvina Ribeiro

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