Não há ponto sem nó

Sofiamaul 02

Não há ponto sem nó, nem conto sem avó. Nasci aqui na ilha e cresci ao som de vozes em línguas diferentes que contavam histórias dos lugares de onde vinham os meus avós. Os estudos levaram-me para o continente mas a ilha nunca se perdeu na minha memória e na minha fala. Faz dois anos que regressei ao ponto de partida que é lugar de chegada e passagem e paragem de gentes de todo o mundo. Quando cheguei tive a sorte de me ligar à Associação Xarabanda através de um projecto que todas as semanas reúne dezenas de pessoas para cantar numa só voz as cantigas que fazem parte do nosso repertório colectivo. Desde logo fiquei abismada com a riqueza dos arquivos desta associação que há 36 anos recolhe músicas e cantigas pelas serras e vales e fui convidada a juntar-me à equipa e acompanhar a recolha musical para perceber se os que ainda cantam também contam. E como contam! Como contadora de histórias o meu foco, quando partimos à descoberta, são sempre os contos tradicionais e populares. Sou frequentemente convidada a participar em festivais da narração oral além-fronteiras, e nada me faz mais feliz do que poder levar a ilha e as suas histórias aos escutadores de todo o mundo com que me cruzo. Quando chegamos a casa de alguém com o gravador em punho, a primeira reacção costuma ser: “Ah… já não me lembro de nada disso…”. Contudo, quando se começa a indagar sobre os hábitos da infância e sobre os momentos de partilha à lareira, debaixo da latada com agulha e linha na mão, à porta do forno com o cheiro da batata e do fermento no ar, aí começam as jorrar as memórias. A maioria das vezes é na descrição da avó que começam a despontar as histórias, pedaços de contos que juntos vamos reconstruindo. E um conto nunca vem só: como as cerejas, eles surgem, às vezes emaranhados, mas com linhas de cores diferentes para facilitar o seu desembaraço. E o Rui Camacho lá está, a gravar e a fotografar tudo e a relembrar fragmentos de histórias de que se recorda de outras recolhas naquela mesma freguesia. Mas o que mais me espanta mesmo, é a generosidade da partilha. Há sempre fartura culinária na mesa e às vezes é a toalha bordada, às vezes o prato de loiça em que é servida a carne vinha-d’alhos, às vezes é até a receita do licor de tangerina que é pretexto para o início da conversa. Quantas vezes o bolo família serve para fazer perguntas sobre como era o lar na infância e as respostas, essas, estão cheias de descrições. Descrevem como era a casa, como era o dia-a-dia, como eram as relações na família, como eram as celebrações pelo regresso de um familiar embarcado, como eram as noites de tempestade apaziguadas pela voz dos avós e pelos contos e histórias de vida que contavam. Os contos são isso mesmo: momentos em que nos partilhamos e voltamos a abraçar as palavras e quem as transmitiu. Momentos em que a memória reconquista a cor e as gentes que já partiram ganham novas vidas. E eu só posso estar muito grata por poder contribuir para a preservação dessa memória particular e ao mesmo tempo tão colectiva.

Sofia Maul

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