O C.F e a conjuntura política da década de 60.

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O C.F e a conjuntura política da década de 60.

CF 3 De Setembro 1967 Dest

Corria os idos anos 60 do século passado, quando o País foi surpreendido por uma sucessão de acontecimentos que, quer interna quer externamente, alterou abruptamente aquela forma do “viver habitualmente” dos portugueses tão do agrado do então poderoso presidente do conselho de ministros, António de Oliveira Salazar.

José Maria Amador

De entre esses acontecimentos, a nível nacional, destacam-se, pela sua importância, a ocupação, pela União Indiana, dos enclaves de Goa, Damão e Diu até então administrados por Portugal; o início da guerra colonial em Angola que rapidamente se estendeu a outros territórios africanos colonizados pelos portugueses; o “assalto ao paquete Santa Maria” – uma das “jóias” da nossa marinha mercante – acontecimento até então inédito e que foi largamente noticiado pela imprensa nacional e estrangeira, para além de outros factos menos relevantes que foram minando a autoridade e a estabilidade do regime como a fuga da prisão do Forte de Peniche de altos dirigentes do Comité Central do PCP, os milhares de panfletos contra o regime lançados de um avião no centro de Lisboa, o assalto à delegação do Banco de Portugal na Figueira da Foz e, por fim, a contestação ao “Estado Novo” proveniente de um sector importante da Igreja Católica que, até então, tinha sido um dos pilares da ditadura. Basta referir o aparecimento da revista “O Tempo e o Modo” fundada por António Alçada Baptista e João Bernard da Costa e da contestação de outros intelectuais católicos (Salazar, na sua ironia cáustica, apelidava-os de “peixinhos vermelhos a nadar em água benta”) para se perceber que a posição da Igreja era cada vez mais dissonante dos ideais defendidos pelo regime. A este facto, não será certamente alheio a realização do Concílio do Vaticano II bem como as posições defendidas por Paulo VI em relação aos movimentos de libertação das colónias. Por fim, no Verão de 1968, como consequência de um acidente que o deixou incapacitado, Salazar é afastado da governação do País.
É nesta conjuntura que reaparece na Madeira, em 1967, o semanário cor- de-rosa “Comércio do Funchal” (CF), dirigido por Vicente Jorge Silva cujo grafismo e temas abordados nada tinha a ver com aquilo que existia no País.

Ao nível internacional, durante a década de 60, para além da crise de Cuba, do fim da descriminação racial nos EUA e do início da guerra do Vietname, houve a revolta dos estudantes em França, em Maio de 1968, numa atitude de clara ruptura com o “status quo” existente na sociedade francesa, designadamente nas vertentes política, económica, social e cultural. Durante todo esse mês de Maio e com o apoio de diversos sectores produtivos do País, a França paralisou perante uma contestação gigantesca e espontânea que as Centrais Sindicais não previram nem controlaram.
Ironicamente foi este acontecimento que levou à suspensão do CF durante cerca de 6 meses uma vez que fora publicado um número especial sobre o

Maio de 68 em França que foi objecto de condenação por parte dos serviços de censura de Lisboa.
Os arquipélagos da Madeira e dos Açores, não foram, de início, afectados pelos acontecimentos acima referidos, a não ser por aquelas famílias cujos filhos iam combater para as colónias: vivia-se pacatamente no Funchal onde os opositores republicanos ao regime conviviam alegremente no café Apolo em que, por vezes, participava o então director local da PIDE, apreciador de antiguidades; e em que a censura era particularmente benévola desde que não fossem publicados artigos críticos em relação ao governo central.
Já muito se falou e se escreveu sobre o C.F, como um jornal de excepção na época, em relação ao qual fui um entusiástico colaborador, embora esporádico, uma vez que, em 1969, vim para Lisboa estudar tendo passado a colaborar apenas durante as férias do Verão.
Lembro-me, por exemplo, de colaborar numa sessão humorística, o “Lusitaníssimo”, onde se transcrevia citações dos governantes da altura, designadamente do então Presidente da República, Américo Thomaz, que era useiro e vezeiro em dizer coisas hilariantes que nos dava grande gozo transcrever.
Lembro-me igualmente do apoio dado por colaboradores e voluntários a preparar a expedição dos cerca de 15 mil exemplares enviados, na sua esmagadora maioria, para o Continente (Lisboa, Porto e Coimbra).
Também não posso deixar de referir o precioso contributo dos “rapazes” que, na altura, colaboravam no CF, de entre os quais o próprio Vicente, o Luís Angélica, o Artur Andrade, o Tó Canavial, o Paulo Sá Brás, o Dr. António França Jardim, entre outros, na análise dos acontecimentos que ocorriam no País e no Mundo.
Sem dúvida que uma das razões do sucesso do CF deve-se ao facto de ter sido um jornal lúdico feito com entusiasmo, empenho e camaradagem.

José Maria Amador

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