O panelo no Chão da Ribeira, Seixal

Panelo 06

Após a celebração daquela que é a maior FESTA da Ilha da Madeira, o Natal, Janeiro entra com mais vagar mas não menos fulgor, sobretudo na zona Norte e, em particular, no Chão da Ribeira, onde o Panelo, no terceiro Domingo de Janeiro, junta milhares de pessoas vindas de todos os cantos da ilha.
Este convívio, que começou por ser circunscrito aos residentes da zona Norte, e em concreto aos habitantes do Seixal, Ribeira da Janela e Porto Moniz, foi-se alargando a familiares e amigos, e, quase de forma espontânea, abriu portas a conhecidos e até desconhecidos, tornando-se, nos dias de hoje, um emblema do Chão da Ribeira, zona privilegiado de cultivo.
Trata-se de uma tradição difícil de localizar no tempo. Sendo uma celebração de cariz popular e profana, não se encontram registos que possam confirmar o início da sua realização. No entanto, o Memória das Gentes que fazem a História, através da recolha de testemunhos, entrevistou Beatriz Silva, a 3 de novembro de 2015, nascida e criada na Casa do Penedo, Seixal. Neste depoimento, ficámos a saber que o panelo faz parte já das lembranças de infância de Beatriz Silva, em data, contudo, perdida no fio da memória.
– Ia lá para cima [chão da ribeira] com as minhas irmãs. Ainda era pequena.


Naqueles primeiros tempos, o comer [semilhas, couves, cenouras e alguma carne] era cozido nas latas de banha, uma espécie de panela improvisada que era colocada em cima dos gravetos onde se acendia o lume.
– Enquanto o comer cozia, fazíamos rodinhas e cantávamos e dançávamos.
Beatriz Silva não tem dúvidas de que foi a sua família a primeira a fazer o panelo. Nesses primeiros tempos, era apenas um convívio familiar, uma forma de passar o dia diferente. Depois, foram chegando alguns amigos. Aí, cada um estendia a sua toalha em cima da erva,
– e deitávamos o comer em cima das toalhas e depois cada um sentava-se à roda da sua toalha.
Mais tarde, os outros donos dos palheiros passaram também a fazer este convívio, aumentando assim a animação, lá no planalto sobranceiro ao Seixal.
– Era só gente da freguesia. Era muito divertido. Quando vínhamos para baixo, apanhávamos a flor da couve e vínhamos cantando até chegar cá em baixo. Ainda era um bocado … pelo caminho velho.
Nos dias de hoje, o panelo tornou-se mais uma festa à qual não se pode faltar. Para os da freguesia e para os de fora. Estão lá todos. Beatriz já não. Já não se coze o comer numa lata de banha mas a comida ainda é servida em cima da toalha … como manda a tradição.

Guardar

Guardar

Guardar

Comentários

comentários

Acerca do Autor

Graça AlvesLicenciada em Línguas e Literaturas Modernas, é professora do ensino Secundário e tem participado em diversos projetos literários. Está destacada no Centro de Estudos de História do Atlântico, onde tem desenvolvido trabalhos ligados à literatura e às histórias de vida.Ver todos os posts por Graça Alves →

Deixar uma resposta

SRETC | DRC | CEHA | Madeira