O RE-NHAU-NHAU e o Porto do Funchal

Renhaunhau Porto Destaque

De portos e de mares…

O RE-NHAU-NHAU e o Porto do Funchal

renhaunhauVai-tudo-para-Canarias-Porto O porto do Funchal foi, durante séculos, o eterno problema da Madeira, constituindo uma das reivindicações mais pertinentes e persistentes dos madeirenses que viam os navios fugirem para Canárias, desviando para lá uma importantíssima fonte de receitas que se cá ficassem poderiam contribuir para minorar as suas dificuldades ancestrais. Curiosamente foi o Estado Novo que a satisfez, após muita reivindicação. A falta desta infraestrutura fez com que a Madeira se atrasasse em relação a outros portos concorrentes, como por exemplo as Canárias, que a nível do turismo muito beneficiou com a falta de um porto em condições na Madeira. Esta foi uma das grandes reivindicações do Zé Povinho madeirense. Ora era a carga para a Madeira que não podia desembarcar devido ao mau tempo, ora era a falta de óleo à navegação, fazendo com que os navios fossem abastecer às Canárias.
O Zé Povinho madeirense estava a ficar farto de esperar por essa obra tão ansiada e sempre prometida em tantas farsas eleitorais, mas eternamente adiada. A Madeira como terra de turismo que queria ser precisava urgentemente dessa infraestrutura que, a não ser concretizada, colocava em causa esse sector económico.
O trimensário humorístico Re-nhau-nhau (1929-1977), que se centrou na caracterização do Zé Povinho da Madeira e nas suas reacções perante os acontecimentos da época, fez eco destas reivindicações. Este jornal de caricaturas foi o de mais longa duração do género em Portugal (48 anos). Para fugir às garras da Censura institucionalizada pelo salazarismo, usava a ironia e as entrelinhas para criticar o que entendia não estar bem na Madeira, reivindicando, de uma forma jocosa mas incisiva, as infraestruturas que a Madeira necessitava para o seu desenvolvimento integral. O jornal, fundado por jovens que tinham então entre 17 e 24 anos de idade, foi dirigido por João Miguel e Gonçalves Preto e teve no seu seio os melhores caricaturistas madeirenses, tendo alguns vingado no Continente.
renhaunhauVai-tudo-para-Canarias-2O Re-nhau-nhau, portador de uma nova mensagem, imbuído de ideias e valores até aí desconhecidos, aparece para denunciar os interesses mesquinhos e individuais da sociedade madeirense de então. A ideia destes jovens era fazer um jornal que fizesse “crítica à crítica” sob o lema “Ridendo castigat mores”. A sua preocupação principal consistia em abordar assuntos de interesse para a Madeira de forma caricatural, com a sua pontinha de “sátira sangrenta”, agitando a sociedade madeirense, pelo equacionamento, de forma ligeira e divertida, dos seus problemas do dia-a-dia.
É neste contexto que se encontram inúmeras gravuras a reivindicar a necessidade premente da construção de um porto de abrigo em condições no Funchal e o início das obras da sua ampliação. Escolhemos três gravuras para elucidar aquilo que afirmamos. A primeira gravura, de 31 de Dezembro de 1929, que é repetida a 8 de Janeiro de 1960, mostra o ano “velho” (1929) a se despedir e a desejar felicidades ao “jovem” ano novo (1930) que emerge, tentando passar-lhe o rolo de obras não cumpridas, entre elas o porto do Funchal que é recusado pelo jovem ano novo com o argumento de não querer enrolar-se nesse rolo que não se concretiza; a segunda gravura, de 14 de Novembro de 1951, foca o momento da chegada ao Funchal do “navio do Cabo”, com 13 toneladas de carga para a Madeira mas sem poder desembarcar devido ao mau tempo, por falta de um porto em condições. Vemos o bacalhau com vontade de saltar de bordo, “mas com um porto onde um peixe possa nadar… e saltar…”; a última gravura, de 13 de Fevereiro de 1965, foca o constante lamento do Zé povinho madeirense inconformado por tudo o que é bom ir para Canárias: “os grandes navios, os grandes molhes, os grandes tanques de óleos e os turistas (…) e só não vai lá parar o nosso clima e a nossa paisagem, por milagre!..”

Emanuel Janes | CEHA

Publicado na Newsletter 22, novembro 2014

Guardar

Guardar

Comentários

comentários

Acerca do Autor

Emanuel JanesLicenciado em História e Mestre em História Contemporânea, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Professor e investigador de temas regionais.Ver todos os posts por Emanuel Janes →

Deixar resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

SRTC | DRC | CEHA | Madeira