Os ataques dos submarinos alemães à Madeira durante a Grande Guerra (1914-1918)

Submarino Alemao

A 3 de Dezembro de 1916, pelas 8.30h da manhã, o porto do Funchal foi torpeado com cerca de 50 disparos foi feito à distância de cerca de 2 milhas e que  durou até às 11 horas por um submarino alemão U38, comandado por Max Valentiner.
Os alvos eram a Bateria de artilharia que se encontrava no parque do Casino da Quinta da Vigia,  a Bateria de artilharia do Forte de São Tiago, a Estação do Cabo Submarino e os geradores de electricidade. Porém, algumas das granadas atingiram a casa Blandy, a residência Perestrelo, o coreto do Jardim Municipal e uma casa de bordados, e as seguintes embarcações:

  • a canhoneira francesa “Surprise” de 680 toneladas
  • o porta-submarinos francês “Kanguroo” de 2.493 toneladas pertencente à casa Scheneider
  • o lança cabo submarino inglês “Dacia” de 1.856 toneladas
  • barcaça portuguesa que estava a abastecer o “Surprise” de carvão.
surprise

Canhoeira francesa “Surprise”

O torpedo que atingiu o “Surprise” acertou-lhe a meia nau, na altura do paiol de munições, partindo-o ao meio e fazendo-o submergir em menos de um minuto, causando a morte do comandante Capitão Ladonne, outros dois oficiais, Carvallo e Blic, e 26 outros membros da tripulação. A barcaça que se encontrava amarrada à canhoneira também se afundou, tendo morrido oito homens e ficado feridos quatro que se encontravam a carregar carvão na “Surprise”.
O “Kanguroo”, que se encontrava fundeado na baía do Funchal desde 24 de Novembro de 1916 para reparações, fez fogo com uma peça de proa de 65mm, manobrada pelo próprio comandante da “Kanguroo”, tendo disparado 25 tiros sobre o submarino até o navio se afundar por completo
CONV.STACLARAO “Dacia” tinha acabado de chegar ao porto do Funchal, escoltado pela “Surprise” pelo que se deduz que o submarino terá vindo em perseguição destes dois navios, uma vez que a “Surprise” e o “Dacia” tinham chegado ao porto meia hora antes do início do ataque.
A 12 Dezembro de 1917, a cidade do Funchal foi novamente atacada. O ataque iniciou-se às 6h e 20mn e durou cerca de 30mn. O submarino bombardeou uma área dispersa da cidade com cerca de 50 tiros para terra tendo causado a morte de 5 pessoas e ferimentos a 30 outras.

Uma das granadas atingiu a Igreja de Santa Clara, provocando grandes danos e ferindo o Padre Abel da Silva Branco.

In http://www.momentosdehistoria.com/MH_02_08_Marinha.htm

Max Valentiner
Diário de Bordo

Max Valentiner, comandante do submarino, registou assim a sua chegada ao Funchal….

Chegámos ao Funchal, a capital da Madeira, num domingo de manhã. Um grande vapor estava à entrada, à espera de um piloto. Permanecemos a uma distância considerável e, imergimos quando o dia nasceu.
Um barco piloto saiu do porto e conduziu o vapor através do caminho entre a barragem de minas à entrada do porto. Na verdade, eu não sabia se existiam minas, mas tinha de prever a sua existência.
Ao aproximarmo-nos do porto, observei um pouco a paisagem. Já cá tinha estado em 1902, como cadete e lembrava-me bem: à minha esquerda, uma rocha com um forte na cimeira, na encosta íngreme a cidade do Funchal, desde o mar à crista do monte viam-se casas em nichos dentro de jardins, muita verdura – um quadro encantador.
dacia 1   A operação de entrada na baía funchalense não foi fácil. Deparamo-nos com um numeroso grupo de canoas de pesca e corríamos o risco de ficar presos nas redes. Fui obrigado a pegar no periscópio para manter a visão e manobrar dentro daquela confusão. Passamos a menos de dois metros de um desses barcos de pesca e vi, bem à minha frente, um pescador local com a cara bronzeada. Avistando o periscópio, o terror espelhou-se na sua face. Aos gritos e por entre lágrimas, deu o alarme e todos remaram freneticamente para o calhau.
foto madeira guerraNo entanto, não podia disfarçar a minha deceção: esperava encontrar um esquadrão britânico e poder torpedear os oito cruzadores, enviando-os todos ao fundo. Mas, no porto, não havia mais do que uma grande embarcação americana com seis mastros. Não a podia atacar. Atrás dela, um pequeno cruzador francês, o Surprise, e ao lado deste, o vapor que eu tinha visto entrar. Teria cerca de 6.000 toneladas e chamava-se Dacia. À frente do Dacia encontrava-se o Kanguroo, um navio que servia para transportar submarinos. Estes quatro navios estavam dispostos de tal maneira que se os ligássemos por uma linha formavam os quatro vértices de um quadrado.
Mas agora era tempo de agir o mais rapidamente possível. Aumentei a velocidade e fiz rumo à popa do navio americano, que encobria a Surprise. Todos os torpedos foram preparados. Depois de nos termos colado na retaguarda do navio americano, podíamos ver claramente a Surprise. Estava a 500 metros. Ao longo do seu costado encontravam-se barcaças de carvão. Apontei, segurando a mira exatamente sobre o seu meio, disparei. O submarino vibrou e o torpedo partiu.
Virei na direcção da Dacia e quis disparar um torpedo obliquamente pela frente;  mas o ângulo era muito apertado e a distância demasiado curta para fazer a correção. explosão daciaContinuei a rodar lentamente. Então, a minha ré ficou exatamente virada para o meio da Dacia. Durante esta viragem de 180 graus, ocorreu uma violenta detonação. A Surprise foi atingida em pleno meio, provavelmente nos paióis  de munições, afundando após a explosão.
O espetáculo foi tão impressionante que quase me esquecia da Dacia. Sem mais demora, disparei novamente e deu-se outra vibração.  Fomos obrigados a rodar mais 180 graus e o torpedo alcançou igualmente a Dacia. Enquanto este vapor se afundava, a guarnição precipitou-se sobre a peça da ré e começou a disparar sobre o meu periscópio. Mas tudo isso não serviu de nada. A nossa proa estava já dirigida para o meio do Kanguroo e lancei então o terceiro torpedo.
A tripulação do Kanguroo viu chegar o monstro; ordenou o abandono do navio e já se encontravam nos salva-vidas quando o torpedo bateu no meio do navio. Rapidamente, o Kanguroo se afundou.
Depois desses três lançamentos, Wendlandt subiu à cabine e perguntou-me se os navios eram assim verdadeiramente tão grandes e se os disparos iam continuar.  Naturalmente que durante um ataque somente o comandante observa através do periscópio. Todos os outros executam prontamente as suas ordens, esperando, desde a proa à popa, as informações sobre o que se passa.
daciaEntretanto, os fortes portugueses que se encontravam repartidos sobre as colinas ao longo da cidade apontavam e disparavam cegamente sobre a água. Todavia, já não tínhamos mais nada a fazer. Os canhões dos fortes continuavam a disparar, mas os portugueses não tinham senão velhos canhões. Cessamos fogo e dei ordens para sairmos pela mesma rota e, quando nos encontrávamos a cerca de 7.000 metros da cidade, viemos à superfície. Lá no alto, no forte à esquerda, viu-se uma forte explosão e, subitamente, pedaços de rocha rolaram pela encosta abaixo até ao mar.

In “La Terreur des Mers: Mes Aventures en Sous-Marin 1914-1918”, 1931, Trad. Francesa P. Teillac (Capitão-de-fragata), Capítulo XIV.

Publicado na Newsletter 21, outubro de 2014

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Acerca do Autor

GMProfessor do Ensino Básico, é licenciado em Ciências da Educação com uma pós graduação em Estudos Políticos e Sociais. Foi jornalista em vários órgãos de comunicação social regionais e nacionais. É autodidata em artes gráficas e desenho de páginas web.Ver todos os posts por GM →

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