Os dias…

1904 ANGRA Rua Direita

De Maria do Livramento: que vai à missa, que vai à costureira, que vai ao ténis, ao cinema, ao teatro, ao “garden party”, ao chá a casa de alguém, que passeia a cavalo, que vai às corridas de toiros – “Acabo de chegar da Terra Chã, onde fui ver as touradas. Segundo o costume os touros não são grande coisa, mas ainda assim, este ano foi dos melhores. Felizmente não houve quinto toiro!!!” (Carta de Maria de 5/6/933) – que conversa com as amigas, que borda, que tem aulas de inglês ou de italiano, que aprende a cozinhar, que participa em peditórios a favor dos tuberculosos.
Abre-se, deste modo, uma janela para a forma como se passam os dias, nos anos 20 e 30 do século XX.
Em Angra do Heroísmo, a vida de Maria do Livramento mantem-se igual. Cumpre os dias do modo habitual, com uma ou outra festa que conta ao namorado, com pormenores de toilettes, coscuvilhices dos amigos, alguns escândalos, conversas escutadas. Conta-lhe o que sofre pelo facto de ter programas sem ele ou do quanto se diverte porque sabe que ele gostaria que assim acontecesse.
As cartas de Maria abrem, deste modo, um caminho para o conhecimento das formas como se organizam os dias, na Terceira.

De Cândido, sabe-se da vida em Lisboa, dos teatros, dos concertos, da faculdade, do estudo, das explicações, dos professores, das viagens, dos trabalhos que tem de fazer, dos textos que escreve… De Lisboa, o relatório para Maria do Livramento englobava tudo: a ”pândega”, as solidões, as visitas, as compras, os gramas engordados ou perdidos, as obrigações, a comida – desde almoços “bestiais” de sardinhas, carne guisada, batatas fritas, etc., a lanches com massa sovada e doce de batata-doce, por exemplo, sobretudo quando vinha alguém dos Açores e trazia um bocadinho da terra para matar saudades.


E a universidade:
Desse tempo, escreve assim, nas suas Memórias:

“No 1º ano de Faculdade lutei com muitas dificuldades: com hábitos de estudo interrompidos há onze anos, com matérias que me eram completamente estranhas, consegui vencer o ano com a média final de 11 valores e nem sequer em Francês Prático consegui mais que 13. Mas o impulso estava dado e já no 2º ano alcançava três distinções, acabando por me licenciar em 1931 com a nota final de 15 valores” (1983:33).

Os outros anos de Lisboa dizem respeito a outra preparação. Foi o único candidato admitido a estágio e submeteu-se ao exame de estado.
A página do dia 31 de julho de 1933 leva um grito escrito em maiúsculas: ACABEI!!!

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Acerca do Autor

Graça Alves

Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, é professora do ensino Secundário e tem participado em diversos projetos literários. Está destacada no Centro de Estudos de História do Atlântico, onde tem desenvolvido trabalhos ligados à literatura e às histórias de vida.

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