Os usos do bilhete-postal

Bilhetepostal Madeira 4

O bilhete-postal surgiu como meio de comunicação para pequenas mensagens. Difundido por todo o planeta, raras são as pessoas que nunca escreveram ou receberam postais. Desde o seu aparecimento, em Outubro de 1869, na Áustria, os pequenos bilhetes deram impulso às escritas mais banais, comunicando duplamente com o verso e o reverso, transformando-se numa moda, no Ocidente, e num meio de envio de notícias “telegráficas”. Entre nós (Portugal) este tipo de correio data do ano de 1877, tendo os primeiros cartões ilustrados surgido em 1894.

Por ter um custo mais económico do que a carta, depressa se internacionalizou, ganhando espaço próprio no âmbito das escritas privadas, reforçando as ligações de papel e tinta. Este tipo de suporte proporciona um contacto mais informal, no domínio das correspondências, tendo sido uma via para a “democratização” das escritas.

A necessidade de alimentar correntes de afecto e de reforço das relações sociais e familiares em contextos diversificados, como aconteceu com a Primeira Guerra Mundial e na Guerra Colonial, provocou uma grande dinâmica, promovendo novos usos das escritas sem perderem a função para que for am feitos, transmitir pequenas mensagens e registar recordações.

Este pequeno cartão possibilita usos variados, formais e informais, comerciais, de natureza pessoal e cordial ou uma simples saudação, transmissão de um acontecimento, como o nascimento ou outro acto, a manutenção de afectos e de ligação ao espaço doméstico e à promoção e manutenção de afectos. Por este meio, com uma palavra amiga, dá-se a conhecer um sítio por onde passámos, divulga-se a paisagem que admiramos, um monumento que apreciamos, um templo cheio de memórias, o local onde vivemos, uma obra de arte do nosso gosto; em suma, oferecemos uma peça de colecção quando as séries têm tiragens reduzidas e reúnem tais requisitos. Endereçamos um postal em momentos especiais, para contactar a pessoa amiga, rememorando um aniversário, expressando as Boas Festas, quando estamos em férias ou vamos de viagem, e fazemo-lo, acima de tudo, para cultivarmos e manifestarmos a vontade de sustentar correntes de sociabilidade. Receber um bilhete-postal representa o reforço dos elos da amizade entre quem está distante, quem se afastou por uma qualquer razão, como em tempo de guerra ou em contextos migratórios.

A escolha do postal entre um grupo existente no expositor ou escaparate é o primeiro passo da comunicação; depois é escrito, assinado e endereçado, representando uma forma de apropriação do artefacto, marcando-o e transformando-o num objecto pessoal, ao gosto de quem o coloca no correio. Mas, o legítimo proprietário dos bilhetes circulados acaba por ser o destinatário, a pessoa a quem é oferecido o cartão escrito. Recebido o postal, apreciada a oferta, virada do anverso e do reverso, lida a mensagem e depois guardado, o bilhete fica em arquivo como testemunho destas iconografias circuladas e dos elos papel e tinta.

Os cartões escritos partem em todas as direcções. Um aniversário, momentos festivos, períodos de afastamento de quem nos é mais querido, uma simples viagem, as férias, mas, especialmente, a guerra e a mobilidade de longa distância têm na escrita do postal a melhor forma de responder à obrigação de comunicar e manter vínculos sociais e familiares. Para saber da saúde, comunicar com poucas palavras, saudar, endereçar cumprimentos, alimentar cadeias de contactos constantes, contrariando o isolamento e os silêncios, não havia meio mais pessoal do que esta escrita breve, o envio de um cartão timbrado. A própria indústria chegou a todos os sectores sociais e culturais, criando bilhetes para simples circulação, outros de luxo e outros reunindo qualidades artísticas dignas de figurar entre os espólios conservados. Acima de tudo, o postal foi um artigo de difusão da criatividade de artistas amadores e profissionais e “democratizou” o acesso a novas práticas da cultura escrita.

“Viajando” o mundo inteiro através dos correios, estes papéis atravessam, muitas vezes, longas distâncias levando escritas de quem vai e de quem fica. Repositório de memórias, sentimentos e valores perpetuam pessoas, paisagens e acontecimentos das épocas e espaços onde foram produzidos.

Este modelo de comunicação é a forma simples e económica para alimentar contactos e manifestar que pensamos na pessoa a quem escrevemos, a quem enviamos uma recordação sobre o sítio onde nos encontramos ou que queremos presentear com memórias que nos são queridas; são testemunhos de amizade e representam os elos de uma ligação estabelecida através das escritas sem segredos, aberta aos olhares de estranhos, por circularem abertas mas, tal como sugere Schapochnik «numa época de severa vigilância e tabus sobre a sexualidade, a imagem do corpo feminino é uma provocação».

O remetente partilha o prazer, a sensibilidade pela moda, os sítios visitados, as memórias, transmitindo-as ao destinatário e “obrigando-o” a olhar para a paisagem, para o cenário, um quadro ou outras imagens seleccionadas, reforçando laços de coesão parental ou de círculos de amizade e vizinhança. Neste contexto estão as mobilidades, sejam decorrentes de embarques transatlânticos ou impulsionadas pela guerra, pois ambas as situações são afectivamente traumáticas por forçarem algum membro a abandonar a casa e a área de fixação. Assim, os postais ou as próprias fotografias, sendo registos de memórias, funcionam com elos de uma corrente de escritas que se pretende forte e viva, a comunicação entre quem partiu e quem ficou na terra de origem.

Henrique Rodrigues
Politécnico de Viana do Castelo

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