PROJETO NONA ILHA – Alguns aspectos

Romas

Desde as suas primeiras linhas, nota-se o grande potencial do projeto Nona Ilha, com especial atenção para a dispersão dos madeirenses pelo mundo e com destaque para a importante ambição de reunir análises sobre as realidades dos diversos destinos alcançados pela diáspora insular. Objeto de estudos desde o final do século XX, as ilhas atlânticas ocupam um lugar privilegiado na historiografia sobre o Atlântico[1], os historiadores tendo mostrado a importância das ilhas e do mundo insular no desenvolvimento e expansão das trocas transoceânicas. Entretanto, os estudos sobre os fenômenos migratórios portugueses ainda tratam na sua maioria da emigração de Portugal Continental deixando de lado os arquipélagos dos Açores e da Madeira.

Sobre a Madeira, há estudos gerais sobretudo do historiador Alberto Vieira que permitem abordar a questão migratória dos madeirenses[2]. Para reflexões mais precisas no tempo e no espaço, é de ressaltar os estudos tanto anglo-saxão como português[3] sobre a presença dos madeirenses na Guiana inglesa, Trindade e Tobago e Demerara, destinos prediletos dos madeirenses, sobretudo, nos anos 1840 e 1850. Ademais, a emigração para os Estados Unidos e o Havaí proporcionou igualmente uma literatura abundante sobre a questão[4]. Sobre o Brasil, os estudos focaram mais sobre o período colonial mas existem trabalhos sobre a presença dos madeirenses em Niteroi-Rio de Janeiro[5], em Santos e, em São Paulo, nos séculos XIX e XX[6]. Entretanto, um extenso território como o Brasil e outras terras como a Venezuela, a África do Sul e a Europa mereceriam contar com estudos mais numerosos e, com certeza, tal será a mais valia do projeto “Memória/ Nona ilha”.

Nelly de Freitas (PUC/FAPESP)

Com relação à condução dos trabalhos, que devem tomar meses, senão anos, faz-se interessante aproveitar os encontros capitaneados e organizados pelo Centro de Estudos de História do Atlântico como palco para debates e trocas de experiências entre os possíveis autores. Um ambiente em que as minutas das narrativas possam ser testadas e criticadas poderia garantir não somente uma maior coesão do que se pretende uma extensa obras, como melhorias e enriquecimento dos textos.

Passando para comentários mais pontuais e centrados em aspectos específicos desse projeto, as estruturas de cada volume “destino” poderia incluir, em introdução, uma breve narrativa sobre a política de imigração do país e, sobre outras experiências emigratórias que esses territórios ou sociedades conheceram antes ou concomitantemente à chegada dos madeirenses. Uma perspectiva mais totalizante certamente dará um significado mais rico ao fluxo insular.

Relativamente aos volumes sobre Brasil e Venezuela, seria interessante convidar acadêmicos capazes de construir narrativas sobre História Social, Economica, Política e cultural dos êxodos.

Outro aspecto a ser considerado faz referências à insistente circulação de muitos madeirenses. De fato, ainda que uma significativa parcela do fluxo transite da Madeira até um destino específico, onde se instala por gerações, a obra pode enfrentar dificuldades em lidar com indivíduos ou famílias que não obedeciam esse comportamento, transitando por vários destinos em diferentes momentos de suas vidas. Apesar de trabalhar sobre a emigração madeirense para o Brasil, sobretudo São Paulo, pude, durante as minhas pesquisas e através de entrevistas orais, realizadas com a ajuda de Maria Vieira Sardinha Gonçalves, de imigrantes madeirenses estabelecidos em São Paulo-Brasil, por exemplo, pude recolher diversas testemunhas de madeirenses relatando o transito de seus pais também por Curaçau, ou ainda de famílias que, depois de chegarem à América do Sul, e mesmo depois de casados e terem filhos, decidiram partir para a América do Norte onde residiram e trabalharam antes de, novamente, retornar ao sul do continente, deixando os filhos nos Estados Unidos. Para esses êxodos erráticos, talvez fosse o caso de um breve tratamento em cada volume “destino”.

Finalmente, neste momento de construção de ambiciosa obra e apesar do projeto querer focar nas histórias de vida, faz-se também importante uma reflexão sobre as fontes a serem utilizadas. Considerando a já longínqua trajetória dos madeirenses, uma conjugação de fontes e métodos parece se impor, levando em conta análises de textos de acervos pessoais e públicos, coletas de depoimentos de História Oral, ou ainda construção de bases de dados para mesurar e quantificar os fluxos e os perfis dos imigrantes. A combinação de análises quantitativas e qualitativas apresenta-se como uma importante estratégia na organização da obra.


NOTAS

[1] Alberto Vieira. «As ilhas e o sistema atlântico». In: Anuário de estudios atlánticos, n. ° 54-I, p. 207-222, 2008, p. 217.

[2] Por exemplo: Agostinho CARDOSO. “Fenómeno económico-social da emigração madeirense”. In: Separata da Revista de Direito Administrativo, tomo XII, n.°3. Coimbra, Coimbra Editora, 1968; Alberto VIEIRA. “A Emigração madeirense na segunda metade do século XIX”. In: Actes du Colloque International sur l’émigration et l’immigration au Portugal (XIX-XXème siècles), 108-144, Fragmentos: Lisbonne, 1993.

[3] Por exemplo: Mary Noel MENEZES. The Portuguese of Guyana: A Study in Culture and Conflict. Londres, 1994; Jo-Ann FERREIRA. The Portuguese of Trinidad and Tobago: Portrait of an ethnic minority.Culture and Entrepreneurship in the Caribbean. St. Augustine, Trinidad & Tobago, Institute of Social and Economic Research. Tese de Doutorado, Universidade de West-Indies, 1994; João Adriano RIBEIRO. A emigração de madeirenses para as ilhas de S. Vicente nas Antilhas, Funchal, editorial Calcamar, DRAC, 2006.

[4] Por exemplo: Eduardo Mayone DIAS. “A presença portuguesa na América do Norte e no Havai”. In: Bulletin des études portugaises, Paris, Tome 46-47, 1986-1987, p. 17-33; Joaquim Palminha SILVA. Portugueses no Havaí sécs. XIX e XX: da imigração à aculturação. Região autónoma dos Açores, Direcção Regional das Comunidades, 1996; Edgar Colby Jr. KNOWLTON. «Madeirans in Hawaii”. In: Actas do I colóquio Internacional de História da Madeira, Vol. II, Funchal, 1986, p. 1287-1310; Susana Catarina de Oliveira e CASTRO CALDEIRA. Da Madeira para o Hawaii: a emigração e o contributo cultural madeirense. Dissertationde Master, Funchal, 2005, p. 26; Duarte Miguel Barcelos MENDONÇA. Da Madeira a New Bedford – Um capítulo ignorado da emigração portuguesa nos Estados Unidos da América. Funchal, DRAC, 2007.

[5] Por exemplo: Andréa TELO DA CORTE. A imigração madeirense em Niterói, 1930-1990: um estudo de caso. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal Fluminense, 2002.

[6] Maria Suzel Gil FRUTUOSO. A emigração portuguesa e sua influência no Brasil: o caso de Santos (1850-1950). São Paulo, Dissertação de Mestrado, Universidade de São Paulo, 1989 ; Nelly DE FREITAS. Des vignes aux caféiers : Etude socio-économique et statistique sur l’émigration de l’archipel de Madère vers São Paulo à la fin du XIXe siècle. Funchal : CEHA, Coleção Tese 14, 2014.

Texto de Nelly de Freitas
(PUC/FAPESP)

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