São Marçal – Hagiografia e iconografia

Bombeiros SMarcal 02

Escreveu São Gregório de Tours (c.538-594) que São Marçal viajou entre Roma e Aquitania (França), ao tempo da perseguição do imperador Caio Décio (século III), tendo praticado a evangelização na região de Limousin (França). São Marçal foi canonizado no século VI pela Vox populi, ou seja, pela voz do povo, e não pelo Papa.

Os monges da abadia de São Marçal, situada no bispado de Limoges (França), a partir do século XI designaram o seu patrono por apóstolo e criaram a lenda que o mesmo tinha integrado os setenta e dois discípulos seguidores de Cristo (Discipulus Dei). Assim, São Marçal, ainda menino, teria assistido aos milagres da “Multiplicação dos pães” e “Ressurreição de Lázaro”, e no episódio do “Lava-pés” segurou a tolha, enquanto na “Última Ceia” serviu comida. Segundo Vicente de Beauvais (c.1190-c.1264), frade dominicano, autor da enciclopédia Speculum Maius (O Grande Espelho), São Marçal era primo de São Pedro.
Considerar que São Marçal viveu ao tempo de Jesus Cristo e do imperador Caio Décio é prolongar a sua vida em quase três séculos, evidenciando, assim, as lendas subjacentes à sua hagiografia (vida do santo).
São atribuídos vários milagres a São Marçal: ressuscitou um companheiro com o seu báculo mágico (Roma); exorcizou uma jovem (Toulx Sainte Croix); recolheu a cabeça de Santa Valéria (Limoges). Alguns milagres são post-mortem (ocorridos depois da morte do santo), como é o caso do conde Sigisberto de Bordeaux (Bordéus) que apesar de paralítico levantou-se do leito quando foi tocado com o bastão de São Marçal. Outro milagre post-mortem identifica São Marçal como protector dos bombeiros, cujo prodígio ficou representado num fresco executado no século XV no Palácio dos Papas, em Avinhão, que alude à acção do santo extinguindo um incêndio com o seu báculo.
Muita da literatura sobre a vida de São Marçal partiu dos escritos do bispo Aureliano (Limoges, século III), sucessor de São Marçal, ou de um anónimo designado por pseudo-Aureliano, e do monge e historiador Adémar de Chabannes (século XI), embora sempre muito fantasiada.
Entendidas como relíquias, o corpo de São Marçal e o seu báculo ficaram conservados, durante muito tempo, na basílica de Saint Seurin (Bordéus), competindo como centro de peregrinação com a abadia de São Marçal (Limoges) que estava localizada na rota dos caminhos de Santiago de Compostela (Espanha).
O culto de São Marçal foi difundido pela Europa, especialmente por Santo Eloy (século VI), seguindo-se todos os territórios da Cristandade sob a acção dos papas de Avinhão, revelando grande empenho dos franceses na devoção a este santo. Serviu para a difusão do culto de São Marçal, além das relíquias, a sua imagem executada nos conhecidos esmaltes de Limoges, como imagens devocionais.
São Marçal é identificado por um dos seus atributos, o báculo, segundo a lenda, oferta de São Pedro e com poderes mágicos, que termina em forma de mão, outras vezes com uma cruz em forma de tau e com um relicário. É também representado mitrado, com rica paramentaria e largo manto.
A representação de São Marçal, em tapeçarias, frescos, esmaltes, esculturas e pinturas, é essencialmente da Idade Média, mas continuou nos séculos seguintes.
Em Portugal, a devoção a São Marçal está identificada pelo orago de algumas capelas e igrejas. No Arquipélago da Madeira não se conhece, até ao presente, o culto a São Marçal, excepto a prática devocional e popular dos bombeiros madeirenses a este santo, e, por isso, não está inventariada nenhuma pintura ou escultura.

Rita Rodrigues


QUIETAÇÃO, Fr. José da (O.F.M.), Vida e novena do glorioso S. Marçal, discípulo de Jesu Christo,
ínclito bispo e especial advogado contra os incendios, Lisboa, por Mauricio Vicente de Almeyda, 1736 [B.N.L: H.G. 15878 P.].
RÉAU, Louis, Iconografía del arte cristiano – Iconografía de los santos – De la G a la O, Tomo 2 /
Vol. 4, Barcelona, Ediciones del Serbal, 1997, pp. 316-321.
SANTOS, Zulmira C. (coord.), Fontes para o estudo da santidade em Portugal na Época
Moderna, Porto, Porto Editor, Universidade do Porto – Faculdade de Letras – Centro de
Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória, 2003, pp. 159-160.
MENDES, Paula Almeida, Dedicatórias e dedicatários de «vidas» devotas e de santos em
Portugal (séculos XVI-XVIII): entre a proteção e a devoção, VS, nº. 19 (2012), pp. 5-57.

Guardar

Guardar

Comentários

comentários

Deixar uma resposta

SRETC | DRC | CEHA | Madeira