Sobre o amor e a distância

parece-me bem que apesar de não termos inventado o Amor, a verdade é que sempre fomos um pouco diferentes dos outros, senão de todos, pelo menos de muitos que conhecemos”
Carta de Cândido, de 4/5/928

É em nome desse amor e da vontade de se casar que Cândido decide ir estudar para Lisboa. Mesmo que custe. Mesmo que a ausência doa – e doerá durante cinco longos anos em que só vem à Ilha, a Terceira, durante as férias de verão. É na carta de 30 de julho de 1927 que se tem conhecimento dessa resolução.

Os primeiros textos de Maria revelam a dor do amor, o sofrimento, o desespero, as lágrimas, a loucura, o ciúme. Depois, com a aproximação da partida, a antecipação da saudade, do «como-posso-viver-sem-ti?».

Que ferai-je quand il ne sera plus là ? Comment pourrai-je être si-longtemps loin de lui ? Et jamais je ne trouve aucune réponse à ces deux questions-là. L’autre jour, j’ai entendu dire ces vers : «Quem inventou a partida / Não sabia o que era amor/ Quem parte, parte sem vida/ Quem fica, morre de dor». Ne crois-tu pas eu c’est bien vrai? On dirait qu’il a été fait pour nous.
Carta de Maria de 6/8/92

A partir de então, os diários que cruzam o Atlântico levam e trazem os quotidianos. De Angra e da saudade. Do continente e da saudade. Ao ritmo dos diários, isto é, ao ritmo dos barcos – do S. Miguel, do Lima, do Carvalho Araújo, de outros – vão contando o presente preparatório do futuro. Podem, então, encontrar-se, quando ele vem à ilha, no verão. Mas podem, sobretudo escrever-se e, desde modo, aprenderem-se, um ao outro, aprenderem-se, um no outro. Vão percebendo o valor que tem o ciúme numa relação assim. E esperam o tempo que há de vir: o grande dia, em que serão felizes para sempre.

Guardar

Guardar

Comentários

comentários

Acerca do Autor

Graça Alves

Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, é professora do ensino Secundário e tem participado em diversos projetos literários. Está destacada no Centro de Estudos de História do Atlântico, onde tem desenvolvido trabalhos ligados à literatura e às histórias de vida.

Ver todos os posts por Graça Alves →

Deixar uma resposta

SRTC | DRC | CEHA | Madeira