UM CONTADOR DE HISTÓRIAS….DA VIDA

O Sr. Augusto António é um contador de histórias. Pausadamente, ao ritmo da memória, recua até à Rua de Santa Maria, nos anos 30 e sorri:

– Eu era da zona do Calhau. E era maravilhoso. A minha mãe teve 18 filhos, acho eu, que morreram muitos. Não tínhamos brinquedos, quando encontrávamos algum carrinho de madeira, sem rodas ou partido, deixado por algum menino rico, era um tesouro…

A vida do calhau era praia. Foi à escola. Fez o 2º ano do ciclo, depois, não quis estudar mais…. Foi aprender a arte de “desenhador” numa firma de bordados.
Conta dos livros que sempre o apaixonaram . Conta dos filmes que via com o avô, analfabeto, que o metia dentro de um capote, um pouco à maneira do Cinema Paraíso. Conta como lia em voz alta as legendas…. Conta das viagens. Da primeira, sozinho, no Vera Cruz, para visitar um amigo de Famalicão. Levava uma toalha bordada, fruta e um cacho de bananas para oferecer. Conta do espanto que causava pelo caminho.
– Sou da Madeira.
– Nunca tinha visto ninguém da Madeira.
E perguntavam se tinha muitos macacos, muitos pretos. Nunca tinham visto um cacho de bananas, nem abacates, nem anonas.
  – Não percebiam o que eu dizia. A nossa pronúncia era muito carregada. E então no calhau…. Lembro-me que o meu pai me tinha dito que nunca confiasse num continental:
– Havia muitos continentais que vinham para a tropa e enganavam as moças…. Vai sempre com um pé atrás, disse-me ele .
Foi ao contrário. Completamente ao contrário. Foi lá que provou outras coisas que não milho ou caldeira – pastéis de bacalhau, arroz de frango…. Voltou lá muitas vezes de barco; voltou no hidroavião (o pai foi buscá-lo porque ficou doente). Foi em Famalicão que encontrou um amor para a vida, uma mulher mais velha sete anos, com quem viveu 52 anos. Não se esquece o que ela lhe disse: – O menino vai para a escola e depois a gente conversa.
Não foi à escola. Ficou doente de amor. Foi consultado em Lisboa pelo Dr. Egas Moniz, o Nobel. Um orgulho.
  – Isso é paixão.
Casou. Vai para o Brasil trabalhar em bordados. Havia umas fabriquetas em S. Paulo…. Tinha um fascínio pela vida do Rio de Janeiro…. Depois, por razões de ordem vária, quando o bordado decaíu, vai para a Austrália. Tem histórias sem fim deste lugar, de trabalhos e de aventuras, de esperanças e de desilusões. Viveu lá mais de 40 anos. Foi funcionário público sem saber escrever inglês. Nunca gostou daquela terra, nem daquela gente:
– Têm um espírito muito curto. São racistas. Naquele tempo, não suportavam o emigrante. São ilhéus mais fechados do que os madeirenses do lugar mais recôndito da ilha….

E conta outras histórias. Com vagar…. Ao ritmo da memória…. Havemos de as contar…. Esteja atento.

  A story teller

Augusto António is a story teller. Following the rhythm of his memory, he went back in time, to the 1930s when he used to live in Santa Maria and smiling said to us:
– I used to live down by the beach. I was wonderful. My mother had 18 children, I think. Some have died. We had no toys and sometimes when he found a lost wooden car left on the street we believed it was a treasure… Life in that place was spent at the seashore. He attended school and after the 6th grade he decided to abandon school. He went to learn how to make drawings at an embroidery factory.
He told us that he loved reading. He also told us about his grandfather, a fisherman who could not read nor write but who took him to cinema. He had to hide himself under his raincoat. He remembered reading aloud the subtitles to his grandfather… He told about his voyages. The first, on board Vera Cruz, when he went to see a friend in Famalicão. He took an embroider table cloth, some pieces of fruit, a banana bunch to offer the family and the remembered how people stared at him.

– I am from Madeira, he explained.

– I had never seen anyone from Madeira, people answered back.
And then they asked if there were many monkeys and Negroes. They stared at the bananas, at the avocados, the custard apples. They did not understand what I said. Our pronunciation was very different at that time. My father warned me:
– Son, do no trust those people in the mainland. Probably this was because some of the military men who spent some time in Madeira cheated on the local girls…. Be aware, he told me. Things happened differently. People were kind and he tasted so many different kinds of food.
He went back in the following years and once his father had to fly on the Aquila Airways plane to bring him back. He was sick. He had met the love of his life. A young girl seven years older than him with whom he married and lived for 52 years. He still remembers what she told him when he proposed to her:
– You are too young. You have to carry on your studies and then later we can talk about it.
He did not go back to school. He was in love. Madly in love and got more and more sick. In Lisbon he had an appointed with Dr. Egas Moniz, who told his father:
– The boy is in love. The finally got married. The couple went to Brazil and Augusto started working in the embroidery business. He was employed by some small factories in São Paulo … but he was completed fascinated by the way of living in Rio de Janeiro… Then, he decided to go to Australia. Emigrants were not welcomed. They are islanders too, but narrow minded… worse than Madeirans who live in the interior of the island …
And he kept on telling stories…. Soon we promise to share them with you …

Comentários

comentários

Acerca do Autor

GMProfessor do Ensino Básico, é licenciado em Ciências da Educação com uma pós graduação em Estudos Políticos e Sociais. Foi jornalista em vários órgãos de comunicação social regionais e nacionais. É autodidata em artes gráficas e desenho de páginas web.Ver todos os posts por GM →

Deixar uma resposta

SRTC | DRC | CEHA | Madeira