Uma história de vida

Manuel Nunes Fereira 01

Chama-se Manuel Nunes Ferreira, tem 72 anos, vive em Machico. É, ainda hoje, o Adjunto Ferreira, o número Um da Corporação dos Bombeiros Municipais daquela cidade.

Sentamo-nos a falar dos anos 70, quando se tornou “pronto” com um grupo de 10 ou 15 rapazes que tiveram de vir ao Funchal, “a um esqueleto que havia no Campo da Barca” para fazer a instrução. Não havia escadas magirus, nesse tempo. Era  preciso trepar, “cavalgar” os parapeitos das janelas, ter a energia que a juventude traz. Era preciso ter coragem. Como agora.

O Adjunto Ferreira ainda fica com a voz embargada quando se lembra do que foi, do que fez, das respostas do corpo e da alma, no momento em que tocava a sirene e pronto. Chegavam a fazer três serviços por noite: Machico-Funchal- Monte, pelas estradas de antes, com a escuridão de antes. No fim, tinham de levar os doentes ou as vitimas pelas escadas do Hospital dos Marmeleiros, porque, nesse tempo, não havia elevadores para o serviço. Era a coragem. E a força de braços.

Se havia tempo para se despedir das mulheres e dos filhos?

(Gargalhada).

– Sabe lá o que se sente quando toca a chamada… A farda fica ao lado da cama. E custa muito gritar “até logo!”, sabendo que se pode não voltar.  A MULHER EM CASA É UMA BOMBEIRA SEM FARDA!

Manuel Ferreira vai contando. Foi dos primeiros a chegar a Santa Cruz, aquando do desastre de avião. Dos piores momentos da sua vida. Passou a noite inteira a transportar corpos. E o cheiro!

– Passei de manhã pela minha mulher e os meus filhos que vinham da missa e nem os vi!

Às vezes, tem a sensação de que não foi ele. Mas foi. Desceu a escarpa do Caniçal para ir buscar uma vítima lá em baixo ao calhau. Teve de ir a tribunal falar disso (e isso é horrível!). Teve de desencarcerar um corpo carbonizado de dentro de um automóvel que se incendiou, teve de cortar ferros para libertar corpos quando a ponte do Faial ruiu e ele foi o primeiro a chegar ao local.

– Esta vida mexe com uma pessoa!

Perguntei-lhe do medo.

– Não há medo. Ninguém tem a noção do perigo. Se se pensa, não se vai. A FARDA É O ESTÍMULO DA CORAGEM.

O quartel é a segunda família. Sabem que têm de ser equipa e responder à voz do mando.

Que as coisas mudaram, sim. Que as coisas agora são menos difíceis. Se fosse novo, voltaria a ser bombeiro. Ainda é. Ainda vem ao quartel. Isto ainda é a sua casa.

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Acerca do Autor

Cláudia Faria

Mestre em Cultura e Literatura Anglo-Americanas. Membro do CETAPS ( Lisboa) e IABA Europe. As áreas de interesse são as relações anglo-madeirenses, a literatura de viagens, a escrita do eu, diários, (auto)biografias. Professora do ensino básico e secundário destacada no Centro de Estudos de História do Atlântico.

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