MEMÓRIA das Gentes que Fazem a História apresenta-se como uma nova forma de fazer e divulgar a História da Madeira, a desenvolver no período 2016-19, com Autoria e Coordenação de Alberto VIEIRA, Investigador-Coordenador da SRETC.

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A  História fala dos descobridores oficiais da ilha, daqueles que comandaram o processo de desbravamento das matas e da  floresta  e  criaram  o  espaço agrícola. Não fala, porém, dos homens que manobraram os machados e derrubaram as árvores ou  pegaram na enxada ou na picareta para adaptar as encostas à agricultura.

Terão sido os descobridores oficiais navegadores solitários? Então, que mãos hábeis seguraram os lemes dos navios, pegaram nos remos, içaram as velas?

Quem  transformou a densa floresta desta  ilha num jardim, onde as flores se confundem com as árvores de  fruto e as culturas com valor económico, com o negro do basalto ?

Quem construiu os  poios  e  recolheu  a  pedra  que  faz  os muros e retém as terras para que surjam hortas, vinhedos e canaviais?

Quem construiu as levadas que deram vida aos engenhos e serras de água, permitindo-nos culturas como a cana-de-açúcar? Quem perdeu ou arriscou a vida nos abismos, para que a água corresse, chegasse aos engenhos e às terras de culturas?

A História deixou legados importantes à nossa cidade – edifícios imponentes, com torres avista-navios, pontes  que ligam  as margens das ribeiras, muralhas de proteção e um conjunto de fortificações do burgo e da ilha. Conhecemos os  vereadores, os homens-bons do concelho, os capitães dos donatários, os senhores, os mercadores. Conhecemos a história de quem ordenou a sua construção; não nos lembramos, porém, dos que ergueram as pedras, dos que construíram cada monumento.

As  quintas  erguem-se,  imponentes,  dentro  e  fora  do  burgo,  e  sabemos  dos  seus donos  por  gerações,  mas nunca  ninguém  quis  saber dos  colonos,  trabalhadores e  até  mesmo  escravos  que as  elevaram e  contribuíram para que se criasse tão opulento  deslumbramento para  deleite  de  alguns nacionais e estrangeiros.  Quem, afinal, construiu estas quintas,  deu  colorido às suas varandas e jardins?

Quem eram,  afinal,  os  que carregaram  a  cal,  a  pedra  e  a  madeira para assentar estas estruturas e transformá-las em palácios imponentes?

A História fala da  construção,  por  ordem  de  D.  Manuel, da praça, da igreja (Catedral),  da  Alfândega (hoje,  sede  da  Assembleia Legislativa  Regional),  dos paços  do  concelho  e  da picota  (ambos  desaparecidos  na  voracidade  do  progresso). Temos notícias das ordens, dos destinatários que as fizeram cumprir, mas ignoramos os operários que as ergueram.

Sabemos, também, da necessidade e da obrigatoriedade do contributo braçal de todos, em muitas situações, mas sabemos também  que,  por  diversas  vezes,  esses trabalhos  obrigatórios  eram  entregues  a escravos, a servos e pagos a trabalhadores de  soldada.  Quem eram,  afinal,  os  que carregaram  a  cal,  a  pedra  e  a  madeira para assentar estas estruturas e transformá-las em palácios imponentes?

O palácio de S. Lourenço é uma obra arquitetónica emblemática da cidade e da manifestação dos poderes de dentro e de fora da ilha. Sabemos tudo – às vezes, demais – sobre alguns proprietários e inquilinos, mas não conhecemos nada sobre aqueles que o ergueram e, ao longo do tempo, cuidaram da sua manutenção e adaptação  a  novas  funcionalidades. Quem é esta gente, afinal?

Estas são perguntas que dificilmente encontram respostas na nossa historiografia. Não terá esta gente direito a ver a sua ação inscrita nos anais da História da Ilha?

Montaram-se estruturas  de  mando,  que abrangem todos os aspetos da sociedade, temos os registos  dos senhorios, dos capitães do donatário, dos provedores, corregedores, almoxarifes, contadores, vereadores. Poderiam estas estruturas funcionar apenas com eles?

O  porto,  a  diário,  e  enquanto a luz do sol brilhava nas águas e pedras do calhau,  movimentava a cidade. A História guardou, apenas, os nomes daqueles que raramente pisaram o calhau e nunca viram os  seus  pés  embebidos na  espuma  resultante  do embater das ondas. Será que os demais, os  moços  de  soldada,  boieiros,  barqueiros, bomboteiros,  rapazes  da mergulhança  não  fazem parte desta História? Então,  porquê  tantos  silêncios e esquecimentos?

A partir de 1821, alteram-se os quadros da política institucional  e  aos  governadores  e  altos  funcionários,  juntam-se  os deputados,  os  ministros e secretários de estado. E os outros, onde estavam? Os séculos passaram e a ilha continuou a ser historiada com o nome dos que assumiram posições de comando. Não se sabe do povo. Apesar do avanço da História, a gente comum não existe. Terão todos emigrado?

Em 1976, abriram-se as portas para uma expressão de governo local capaz de legitimar os anseios de todos os madeirenses. Apesar disso, a História não registou “os madeirenses”. Registou, sim, apenas, governantes,  deputados  e  chefes  ou presidentes  de  partidos. Afinal,  onde  ficam, nesta História, os milhares de eleitores que os fizeram eleger? Não interessará a sua história, para a construção da História da Madeira de hoje ?

A História guardou, apenas, os nomes daqueles que raramente pisaram o calhau e nunca viram os seus pés embebidos na espuma resultante do embater das ondas.

Avançamos no tempo, entramos na CEE, hoje UE, que permitiu uma aproximação aos padrões de vida e progresso europeu. Fala-se em governantes ativos e reivindicativos, em técnicos capazes para estabelecer projetos de túneis e vias rápidas que atravessam a ilha em todos os sentidos,  em  empreiteiros,  da  ilha  e  de fora, com capacidades técnicas para corresponder a estes desafios da engenharia, mas, nunca, ou quase nunca, porque estes só  aparecem  em  momentos  de  acidente ou tragédia, se fala dos operários que seguraram  e  guiaram  os  equipamentos. A nossa rede viária não conterá, também, o seu suor e o seu sangue?

São estas perguntas que justificam este nosso projeto. Pensamos que todos são protagonistas e heróis da História, pelo que apostamos  na  História  vista  de  baixo, nas  histórias  de  vida  de  todos aqueles, eleitores e eleitos, que ontem e hoje, a seu modo, com as funções que lhes foram confiadas, contribuíram para construir aquilo que é a Região Autónoma da Madeira.

Não  ignoramos  a  documentação,  nem ninguém,  mas  queremos  que  a História da Madeira seja um caso exemplar entre as histórias regionais, em que  de todos sejam protagonistas,  juntando a voz e o contributo de eleitos e eleitores. Por essa razão, fazemos as  Memórias da Autonomia, onde todos têm condições para legar o seu testemunho e se apresentar, de corpo presente, nos anais da nossa História.

Pensamos que todos são protagonistas e heróis da História, pelo que apostamos  na  História  vista  de  baixo, nas  histórias  de  vida  de  todos aqueles, eleitores e eleitos, que ontem e hoje, a seu modo, com as funções que lhes foram confiadas, contribuíram para construir aquilo que é a Região Autónoma da Madeira.

Não limitamos, porém, esta visão da História ao quadro político, queremos encara-la em toda a sua globalidade e vivência particular e coletiva. Por isso, fazemos o registo e a memória coletiva e individual, incentivamos a Autobiografia e promovemos as Historias de Vida.

E que  ninguém  falte,  porque  todos  são importantes e têm uma História para contar, tão importante como as que já conhecemos.

Por esse motivo, abrimos as portas a todos os que ficaram na ilha, suportaram as dificuldades de outros tempos e ajudaram a construir os novos tempos, mas também daqueles que, nos anos sessenta, partiram em defesa de um ultramar a que éramos alheios, ou que, desde muito cedo, se espalharam pelo mundo em busca de outras ilhas e espaços, condições de vida, mas sem nunca esquecer a sua terra e ilha.

A todos, presentes e ausentes, a História tem capacidade e condições para assegurar o seu registo e memória, guardando as suas vivências e histórias, através da metodologia da História Oral, hoje materializada nas Histórias de vida, que nos abriram outros caminhos e presenças e que fazem com que a História vista de baixo complete a outra História oficial vista de cima. Só assim teremos uma História de todos e para todos.

Queremos mudar a memória que temos do passado e construir uma Nova História da Madeira, integracionista de todos os grupos e estatutos sociais e que seja, definitivamente, uma imagem daquilo que, na verdade, aconteceu.

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