C onsidera-se que, oficialmente, o arquipélago da Madeira tem oito ilhas (Madeira, Porto Santo, Deserta Grande, Bugio, Ilhéu Chão, Selvagem Grande, Selvagem Pequena e Ilhéu de Fora).  Nós, porém,  descobrimos uma nona ilha, aquela que os madeirenses levam na mala, quando partem, composta por todos os madeirenses derramados pelo mundo, que são, hoje, avaliados em mais de um milhão. A esta poderá juntar-se outra, aquela que todos os madeirenses que partiram construíram no mundo e trazem no coração.

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Temos dedicado a nossa atenção àqueles que permaneceram e estabeleceram os seus planos de vida, nas  ilhas geograficamente conhecidas, dando relativa atenção àqueles que compõem a nona ilha. Agora, pretendemos dar voz e protagonismo aos que partiram, de modo a que o seu discurso seja um testemunho do seu contributo para o desenvolvimento das ilhas que deixaram à sua espera, enquanto asseguravam a sua sobrevivência e a dos familiares que nelas permaneceram. É a História das mobilidades dos madeirenses, desde o século XV até a atualidade, que pretendemos reunir em nove volumes.

Hoje, as temáticas da imigração e emigração ou, se quisermos, das migrações, ou ainda, e com mais

propriedade no presente momento, das mobilidades humanas,  revestem-se  de  um  grande interesse  e motivam  o  empenho  das  comunidades  política e científica.

Trata-se, na verdade, de um problema e de uma situação internacional  e  nacional.  É  por  isso que,

nos  últimos  anos,  várias  entidades  têm  promovido estudos  alargados  sobre  os  estes fenómenos,  com o intuito de entender os reflexos na sociedade portuguesa.  A  bibliografia  é  extensa  e  permanente a  publicação  e  projetos  de  estudo,  nos  meios académico  e  institucional.  Tenha-se,  por  exemplo, em conta o trabalho do Observatório da Imigração e de diversas estruturas oficiais, entretanto criadas .

Devemos ainda considerar a dinâmica resultante da política  de  criação  de  museus  da  emigração que se refletiu em Portugal com a criação, em Fafe, no  ano  de  2001,  do  Museu  do  Emigrante  e  das Comunidades, secundado por idêntico projeto para os Açores, em 2005 . Ainda se aguarda por idêntica iniciativa na Madeira, já proposta há muito tempo, com estes debates sobre as Mobilidades Humanas, que se iniciaram em 2006.

Portugal  foi,  por  muito  tempo,  terra  de emigrantes, pelo que a temática dominante foi quase sempre a da emigração. A obra de Joel Serrão foi e continua a ser uma referência para os estudos sobre o tema.

Apenas  no  virar  da  centúria,  se  descobriu  a necessidade de voltar a atenção para o fenómeno da imigração, que assumiu uma importância primordial nestes primeiros anos do século XXI .

Por  outro  lado,  o  estudo  das  temáticas  das migrações  implica,  hoje,  uma  formulação  diferente e co participativa de todos os domínios das Ciências Sociais,  tal  como  se  tem  postulado  nos  últimos anos  e  tem  sido  prática  em  muitos  dos  encontros e  publicações  científicas  de  referência,  conforme se  comprova,  nos  últimos  anos,  por  colóquios, seminários e publicações coletivas. O estudo das migrações madeirenses tem sido feito de modo parcelar, existindo, ainda, uma grande lacuna  que  importa  colmatar  com  novos estudos e análises.

Faz ainda falta de uma História das Mobilidades dos madeirenses no mundo.

Na  verdade,  desde  1985,  nos  Colóquios  de História  realizados  pelo  CEHA,  tivemos  várias apresentações  e  contributos  para  o  tema, inclusivamente  com  a  participação  do  Prof.  Joel Serrão  que  coordenou  uma  mesa  redonda,  no primeiro encontro.

Em  2001,  realizou-se  um  seminário  sobre  a Emigração e Imigração nas Ilhas. E, desde 2006, temos mantido o Seminário anual sobre as Mobilidades. A isto podemos juntar estudos esparsos publicados em revistas e partes de livros.

Acontece,  porém,  que  não  existe  um  estudo aprofundado  sobre  os  fenómenos  migratórios  e  o seu  impacto  na  economia,  na  sociedade  e  na  vida cultural madeirense. Faz ainda falta de uma História das Mobilidades dos madeirenses no mundo. E é isso que propomos, a partir deste ano, com o projeto “MEMORIA-Nona Ilha”, que pretendemos seja o colmatar desta lacuna e uma homenagem aos que partiram e regressaram (ou não). Aliás, olhando retrospetivamente para tudo o que foi feito, podemos afirmar que ainda há muito para descobrir neste campo, pois ainda estamos no início e apostados em pesquisas preliminares. Assim, fazem falta estudos sistemáticos sobre o movimento da emigração madeirense para os quatro cantos do mundo e estudos que permitam mostrar o que foram e o que são essas comunidades madeirenses.

Hoje, continua a insistir-se no movimento estatístico e na ideia de sangria populacional que o fenómeno  gerou  na  Madeira.  Ainda  estamos  por  saber, de forma clara, qual o impacto deste fenómeno na demografia;  ainda  continua  a  ignorar-se a importância  do  retorno  e  as  suas  implicações  na ilha.  Algumas  épocas,  como  o  século  XIX  e  alguns destinos, como o Brasil, América Central, Havai continuam a monopolizar a atenção dos especialistas, sendo pouca ou nenhuma atenção dada a destinos e  comunidades  como  a  Austrália,  África  do  Sul, Venezuela,  Estados  Unidos  da  América   e  ex-colónias.

O estudo da emigração madeirense passa ainda por  outras  posturas  científicas  e  institucionais  que vão desde a necessidade de criação de um museu, um  centro  de  documentação,  a  exemplo  do  que existe  em  Fafe  e  na  Ribeira  Grande,  Açores,  assim como a valorização das Histórias de vida, através do contributo da História Oral.

Desde  1986,  altura  em  que  tivemos oportunidade de estar em Toronto a convite da The Multicultural  History  Society  of  Ontário,  temos insistido na necessidade de se apostar nas Histórias de  vida  através  da  História  Oral  ou  memórias biográficas,  como  repositório  fundamental  para reconstituir  o  quotidiano  da  emigração,  de  forma a  possibilitar  a  construção  da  História  do  mesmo fenómeno, de forma abrangente e global.

A oportunidade que nos foi dada de ter acesso a alguns registos sonoros sobre as peripécias vividas

nos  primórdios  da  emigração  para  o  Canadá  foi motivo  suficiente  para  abalizarmos  da  importância desta técnica nos estudos sobre a emigração.

Mais  tarde,  em  1991,  o  Museu  da  Pessoa em  S.  Paulo,  onde  pudemos  encontrar  algumas memórias  vivas  de  madeirenses,  foi  a  prova  de que  necessitaríamos  de  avançar  por  esta  via,  caso quiséssemos  preservar  as  memórias  da  emigração madeirense.

 

Embora  a  palavra  “imigração”  não  pareça constar da História madeirense, temos de dizer que este fenómeno foi uma constante na nossa História, não  obstante  a  comunicação  social  e  o  universo político  só  se  terem  apercebido  desta  realidade,  a partir de finais do século XX .

Tendo em conta estes resultados e a pertinência desta  opção,  propusemos  a  António  Abreu Xavier uma metodologia semelhante para o estudo da emigração madeirense para a Venezuela, de que resultou  o  projeto  “Histórias  de  Vida  do  Correio da  Venezuela”.  Da  primeira  colheita  de 234 entrevistas feitas por António Abreu Xavier, resultou importante informação que foi condensada na tese de doutoramento defendida pelo mesmo, em 2007.

Foi  com  base  em  novas  metodologias  que, em  2013,  começamos  um  projeto,  com  base  na chamada História Vista de Baixo e na Autobiografia, no sentido de ir ao encontro de uma outra História das  Mobilidades  dos  Madeirenses  no  Mundo.

Queremos  ouvir  os madeirenses,  através  da entrevista presencial, de testemunhos de terceiros, ou de registos de cartas, diários e outra informação manuscrita  e  publicada  que  permitam  reconstituir o quotidiano das mobilidades. Queremos revelar os problemas que  sempre  estiveram  por  detrás  desta solução  e  evidência  das  sociedades  insulares  e,  de forma especial, da madeirense.

O tema da imigração foi, durante muito tempo, uma página em  branco  na  produção  científica madeirense.  Foi quase  sempre  defendido  que  a Madeira era um mercado de origem de emigrantes e nunca um destino de imigrantes. Embora  a  palavra  “imigração”  não  pareça constar da História madeirense, temos de dizer que este fenómeno foi uma constante na nossa História, não  obstante  a  comunicação  social  e  o  universo político  só  se  terem  apercebido  desta  realidade,  a partir de finais do século XX .

As grandes obras  especializadas  para  a construção do aeroporto e da rede viária implicaram necessariamente a entrada  de  mão-de-obra do  continente  português  e  de  outras  origens, nomeadamente do Brasil e dos países de leste. Na verdade,  não nos lembramos, muitas vezes, que a  sociedade  madeirense  foi  fruto  da  imigração  de gentes do reino e de outras proveniências europeias que se misturaram com escravos de Canárias, N. de África e Costa da Guiné.

A  etnogenia da sociedade madeirense despertou, desde sempre,  o  interesse  da  literatura,  etnografia e  História,  mas  não  existem  consensos  sobre  as origens  daqueles  que  estiveram  no  princípio  do povoamento da Madeira. Foi aqui que se manteve o  debate,  a  partir  de  finais  do  século  XX  e  durante muito  tempo,  esquecendo-se  a  multiplicidade  de origens  do  fermento  da  sociedade  madeirense. Esta permanente  abertura  do  porto  funchalense  à entrada  de  passageiros  com  estadia  passageira  ou prolongada merece ser mais bem equacionada. Povoadores,  escravos,  funcionários,  mercadores, foragidos da justiça, das perseguições religiosas e  políticas,  deportados,  doentes  em  busca  de  cura e,  finalmente,  trabalhadores  fazem  parte  desta mistura de raças, culturas e povos que identificam a sociedade madeirense na atualidade. Temos dados e informações sobre este movimento de permanente entrada  de  imigrantes,  mas  faltam-nos  estudos sobre a sua importância na sociedade e demografia madeirenses.

A  situação  dos  últimos  decénios  é  uma realidade desconhecida e apenas temos informação em estudos de âmbito nacional. Falta, diga-se em boa  razão, um estudo  sobre as vagas de imigração dos últimos decénios.

Devemos  ainda  considerar  o  retorno  de madeirenses  da  Venezuela  e  África  do  Sul,  que tem  tido,  nos  últimos  anos,  um  impacte  evidente na  sociedade  madeirense.  Estamos  perante  uma realidade  ainda  não  devidamente  quantificada e  quase  desconhecida  em  termos  de  estudos sociodemográficos.  Conhecemo-los  e  contactamos com  gente  que  regressou  desses  países  de acolhimento; identificamo-los através do seu modo de falar, mas temos, muitas vezes, dificuldades em aceitar  o  retorno,  porque  isso  implica,  de  novo,  a partilha  do  magro  território,  do  poio,  que  os  que ficaram consideram seu, não por herança, mas por usufruto.

Neste sentido do discurso da intolerância face aos emigrantes,  recordo  aquilo  que  dizia  Roberto Carneiro [in Santos,  Vanda  (2004),  O  discurso  oficial  do  Estado  sobre  a emigração dos anos 60 a 80 e emigração dos anos 90 à actualidade, Lisboa, ACIME, p.9-10],  na  apresentação  de  um  livro,  quando assinalava o facto de sermos historicamente um país gerador de emigrantes iguais ou certamente  menos  qualificados que  os imigrantes  que  hoje recebemos,  pelo  que  o  discurso  da  reciprocidade deve  ser  uma  palavra  de  ordem  das  políticas  e dos  nossos  comportamentos  sociais,  face  a   estas pessoas.

Em síntese,  podemos  afirmar  que  a  História das  mobilidades  é  um  caminho  aberto  a  novas investigações e estudos. Uma área quase esquecida que, ao  ser  estudada,  revelará  outras  facetas  da definição  da  sociedade  madeirense.  Mas,  acima  de tudo,  devemos  encarar  este  processo,  como  uma homenagem a todos os que tiveram a coragem de partir na busca de soluções melhores para si e para a sua família.

Queremos lavrar o memorial, em homenagem daqueles  que  morreram  durante  o  percurso  de ida para um sonho de Eldorado e terra prometida, que  ficou  enterrado  no  oceano, mas também dos que  o encontraram  e  que,  no  regresso,  contribuíram para  o  engrandecimento  da  família  e  da  ilha.  Mas não  podemos  esquecer  todos  aqueles  que persistiram e  ainda continuam  na  labuta,  em  todos  os  recantos  do mundo, para que a ilha continue a ser o que é  e a acalentar o sonho de um retorno ao poio que tiveram que abandonar.

Por fim, queremos construir uma História das Mobilidades dos Madeirenses: A NONA ILHA, tão monumental como foi a sua obra no mundo a partir do século XVI.

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